PAULISTÃO de 1982

               No ano de 1982 o Corinthians conquistava seu 18º título estadual, num ano em que ficou marcado pelo surgimento da “Democracia Corintiana”, liderada por Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon. Mas o que era essa tal democracia? Foi o nome dado pelo publicitário Washington Olivetto ao período em que os jogadores do Corinthians participavam das decisões do clube. De 1981 a 1985, tudo era resolvido pelo voto, das contratações ao local de concentração. O movimento existiu graças ao encontro das pessoas certas no momento propício. A campanha de 1981 foi uma das piores da história. O time terminou na 26ª posição no Brasileiro e, no Paulista, amargou um oitavo lugar. Em abril de 1981, o clube elegeu Waldemar Pires como presidente, encerrando o reinado de Vicente Matheus. Pires indicou para a diretoria de futebol o sociólogo Adílson Monteiro Alves, um cartola inexperiente que ouvia os jogadores. Foi aí que começou a revolução.

               O novo modelo de gestão do clube colocava funcionários, dirigentes e jogadores no mesmo nível em termos de votos. Todos participavam das decisões e todos tinham voz dentro do Corinthians. Sócrates tinha a mesma voz que o roupeiro, Wladimir o mesmo poder de voto que o massagista e assim por diante. Tudo era democrático, claro e simples. Entre outras medidas, os atletas liberaram os casados da concentração. Em campo, a autogestão rendeu gols e títulos. Em 1982, Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon lideravam o movimento da Democracia Corintiana, que pregava uma maior participação dos atletas nas decisões referentes ao departamento de futebol do clube. Isso ocorreu justamente na época da ditadura militar. No mesmo ano veio a conquista do Campeonato Paulista. Artistas como Rita Lee passou a integrar um conselho de “notáveis” dentro do Timão e a marca da democracia passou a ser difundida por todo o país. Foi um sucesso. Que logo seria refletido dentro de campo.

               O Campeonato Paulista de 1982 teve a participação de 20 equipes; Corinthians, São Paulo, Santos, Palmeiras, Portuguesa de Desportos, Guarani, Ponte Preta, São Bento, Juventus, Botafogo, Marília, Taubaté, São José, Inter de Limeira, Ferroviária, Comercial, Santo André, América, XV de Jaú e Francana. Teve início dia 14 de julho com o Corinthians derrotando o Santo André por 1 a 0, gol de Casagrande. Na sexta rodada, aconteceu o primeiro clássico entre Corinthians e Palmeiras. Este jogo aconteceu dia 1 de agosto e foi realizado no estádio do Morumbi que recebeu um público de 40.542 pagantes. Neste dia o técnico Mário Travaglini mandou a campo os seguintes jogadores; Solito, Alfinete, Gomes, Mauro e Wladimir; Paulinho, Sócrates e Zenon; Ataliba, Casagrande e Biro Biro. Do outro lado o técnico Fedato do Palmeiras escalou a seguinte equipe; Gilmar, Benazzi, Luiz Pereira, Polozzi e Jaime Boni; Rocha, Célio e Jorginho; Barbosa, Aragones e Baroninho.  O Corinthians venceu por 5 a 1, gols de Casagrande (3), Sócrates e Biro Biro. Para o alviverde, Jorginho marcou o único tento. Depois destes 3 gols, Casagrande caiu de vez nas graças da Fiel torcida corintiana.

               O favorito à conquista do Paulista de 1982 era o São Paulo, com craques como Waldir Peres, Oscar, Dario Pereyra e Zé Sérgio. O time tinha a chance de conquistar um inédito tricampeonato paulista, mas não contava que na final encontraria o Corinthians, seu principal carrasco. Quem não fez um bom campeonato foi o Palmeiras, pois além da goleada sofrida para o Corinthians por 5 a 1, no dia 23 de novembro sofreu outra goleada, agora para o Santos por 6 a 1. Neste ano a equipe santista era assim formada; Marola, Toninho, Joãozinho, Toninho Carlos e Gilberto Ferreira; Roberto César, Luis Gustavo e Pita; Serginho Dourado (Cardim), Paulinho e João Paulo. O técnico era o saudoso Chico Formiga. E assim chegávamos ao final do primeiro turno com o Corinthians em primeiro lugar. Veio o segundo turno e provando que tinha um bom time, o São Paulo ficou em primeiro lugar. Sendo assim, Corinthians e São Paulo iriam decidir o título do Paulistão de 1982.

A GRANDE DECISÃO

               A decisão aconteceu entre Corinthians e São Paulo que fizeram a melhor campanha durante todo campeonato. Era a melhor de quatro pontos, e a primeira partida foi realizada no dia 8 de dezembro (quarta feira a noite), no estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, casa do Tricolor, que recebeu neste dia um público de 23.039 pessoas. O árbitro da partida foi o experiente Romualdo Arppi Filho. O jogo terminou com a vitória corintiana por 1 a 0, gol de Sócrates aos 14 minutos do segundo tempo.

               Quatro dias depois, as duas equipes voltaram a se encontrar no gramado do Morumbi, que neste dia recebeu um público de 66.851 pagantes. O árbitro para esta partida foi José de Assis Aragão, que expulsou o zagueiro Oscar do São Paulo já no finalzinho da partida. Para este dia o técnico Mário Travaglini mandou a campo os seguintes jogadores; Solito, Alfinete (Zé Maria), Mauro, Daniel Gonzales e Wladimir; Paulinho, Sócrates e Zenon (Eduardo); Ataliba, Casagrande e Biro Biro. Já o técnico José Poy do Tricolor Paulista escalou a seguinte equipe; Waldir Perez, Getúlio, Oscar, Dario Pereira e Marinho Chagas; Almir, Renato e Everton; Paulo César, Heriberto (Serginho) e Zé Sérgio. Mesmo precisando do empate o time do Corinthians dava uma aula de democracia e de futebol naquele ano.

               Começa o jogo e as duas equipes se respeitando muito não se arriscam muito ao ataque, embora o São Paulo precisasse da vitória, pois o Corinthians jogava por um empate. O primeiro tempo foi pegado, cheio de jogadas fortes e algumas até um tanto quanto violentas. Final de primeiro tempo e o placar estava do mesmo jeito que o jogo começou, zero a zero. Veio o segundo tempo e o jogo continuou pegado, mas melhorou. Tanto que aos 26 minutos, após uma jogada de Sócrates (com direito a toque de calcanhar) Biro-Biro invade a área e marca o primeiro gol do Corinthians na partida. O São Paulo precisando da vitória para reverter aquela situação foi todo ao ataque e aos 32 minutos empatou a partida através de Dario Pereira.

              Mas, cinco minutos depois, numa jogada de contra-ataque a bola é lançada para Biro-Biro dentro da área que finaliza pelo meio das pernas de Waldir Peres. Corinthians 2×1 São Paulo. O time são-paulino entrou em desespero, pois precisava fazer dois gols em apenas oito minutos. Foi todo ao ataque e com isto o Corinthians num contra ataque mortal através de Ataliba, fez seu terceiro gol através de Casagrande aos 41 minutos de jogo. Era o 28º gol do centroavante corintiano naquele campeonato, que desde o início da competição já era o novo ídolo da Fiel Torcida Corintiana. Final da partida, Corinthians 3×1 São Paulo. Corinthians campeão paulista pela 18ª vez e o começo da luta efetiva contra a ditadura militar no Brasil.

              Bastava um empate para garantir a Taça, mas a Democracia Corintiana de Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon queria mais. Em campo o clima de liberdade vivida no clube, onde jogadores e dirigentes participavam juntos das decisões que diziam respeito ao departamento de futebol, se traduziu em um categórico 3 a 1 sobre o São Paulo, que sonhava em conquistar o tricampeonato estadual, mas que teve que se render a superidade corintiana. E aquele trabalho realizado em 1982 foi tão importante, que no ano seguinte conquistou o bicampeonato paulista, que para tristeza do Tricolor, foi novamente em cima deles a festa corintiana.

CURIOSIDADES

               No Campeonato Paulista de 1982 foram realizados 382 jogos. Foram marcados 751 gols, o que nos dá uma média de 1,97 gol por jogo. O artilheiro da competição e também a revelação do campeonato  foi o atacante Casagrande do Corinthians com 28 gols. O Corinthians disputou 40 jogos, dos quais venceu 28, empatou 8 e perdeu somente 4 vezes. Marcou 72 gols e sofreu 26, dando um saldo positivo de 46 gols. As quatro derrotas corintiana foram para o São Bento por 1 a 0 no dia 25 de julho, para o Guarani também por 1 a 0 no dia 18 de agosto, para a Francana por 2 a 1 no dia 3 de outubro e a quarta derrota foi para a Ponte Preta no dia 13 de outubro, que por coincidência estava fazendo neste dia, cinco anos que as duas equipes decidiram o título paulista de 1977 e o Corinthians sagrou-se campeão depois de 22 anos, 8 meses e 7 dias. A equipe da Francana fez a pior campanha da primeira fase e acabou rebaixada à 2ª divisão do Campeonato Paulista de 1983. O seu lugar foi ocupado pelo campeão da 2ª divisão que foi o Taquaritinga. O XV de Jaú disputou com o vice-campeão da 2ª Divisão que foi o Bragantino, e conseguiu se manter na Primeira Divisão. A Francana, que foi rebaixada, não disputou o campeonato da 2ª Divisão de 1983, onde só voltou em 1984.

LEMBRANÇAS

               Um dos maiores times que o Corinthians já teve, curiosamente, não é tão lembrado pela sutileza com a bola nos pés ou pelos passes precisos de seu meio de campo, sobretudo de certo Doutor. Esse time é lembrado por ser único, por emancipar o nome do clube no Brasil e por representar fielmente o momento político que o país vivia na década de 80. Esse time foi o Democrático Corinthians Paulista, um time representado no movimento “Democracia Corintiana”, que marcou a inédita participação dos jogadores no dia a dia dos assuntos administrativos e burocráticos do clube, bem como na gestão do mesmo. Jogadores apitavam tanto quanto um engravatado e davam suas opiniões da maneira que lhes fosse conveniente.

              Mas esse esquadrão não vivia apenas de política, claro. Vivia de futebol. E venceu dois campeonatos paulistas consecutivos, ambos contra o grande rival na época, o São Paulo. De quebra, evitou o tricampeonato do tricolor em 1982. Era demais para a fiel torcida? Era. Era mágico, assim como Sócrates, Zenon, Biro-Biro e Casagrande também eram. E assim foi o Campeonato Paulista de 1982, um ano que ficou marcado para a torcida corintiana pela sua democracia e que ainda hoje ao lembrar daquela conquista sente saudade, principalmente do Dr. Sócrates que nos deixou dia 4 de dezembro de 2011. 

Em pé: Solito, Sócrates, Ataliba, Casagrande, Zenon e Biro Biro   –    Agachados: Mauro, Daniel Gonzales, Alfinete, Paulinho e Wladimir

 

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