BANGU 3×0 FLAMENGO – Dia 18 de Dezembro de 1966

               Campeonato Carioca de 1966. O Bangu, como ocorrera nos dois anos anteriores, estava perto do título. Em 1964 e 1965 deixara escapar a taça no final, ficando em ambas as vezes com o vice-campeonato. A base da equipe comandada pelo técnico argentino Alfredo Gonzalez era a mesma montada pelo antigo e lendário treinador Tim. A arma principal do time era o ataque utilizando os lados do campo. O ponta-direita e um dos maiores jogadores da história do time era Paulo Borges. Muito veloz, ele tirava o sono dos laterais que teriam que o marcar. Era tão rápido que recebeu o apelido de “Gazela”, e tão goleador que se sagrou o artilheiro do campeonato (seria também o artilheiro do carioca de 1967). Pelo lado esquerdo do time, Aladim, que mais tarde faria história no Coritiba conquistando 6 títulos estaduais, era quem infernizava as defesas. O Bangu neste campeonato de 66 teve além do já citado artilheiro Paulo Borges, o melhor ataque (50 gols marcados) e a melhor defesa (8 gols sofridos). Se no ataque os pontas eram o ponto forte, na defesa quem mandava era Fidélis. O jogador tinha um porte físico tão privilegiado que foi apelidado de “Touro Sentado”. Sua grande importância para o time refletiu em sua convocação para a Copa 66.

               Em 1966, o Bangu conquistou seu segundo título, o primeiro havia sido há 33 anos atrás, ou seja, em 1933 em cima do Fluminense. Em 66 o Bangu tinha uma equipe muito bem montada, fazendo bela campanha, com quinze vitórias, dois empates e apenas uma derrota, para o Flamengo, no primeiro turno. Mas a revanche veio na final do Campeonato, e teve o sabor especial. Contra o Flamengo, no Maracanã, o Bangu provou que, naquele ano, tinha a melhor equipe da cidade. A vitória por 3 a 0 – gols de Ocimar, Aladim e Paulo Borges, foi pequena diante da superioridade banguense na decisão e poderia ter sido maior, se Almir não tivesse iniciado a confusão que provocou nove expulsões, cinco para o Flamengo e quatro para o Bangu, obrigando o árbitro Aírton Vieira de Moraes a encerrar a partida aos 25 minutos do segundo tempo, dando o título ao Bangu após 33 anos.

                 Na tarde de 18 de dezembro de 1966, o maracanã recebia cento e quarenta mil torcedores para assistirem a decisão do campeonato carioca daquele ano. Mais de cem mil eram torcedores do Flamengo. Estádio lotado para saber se o Flamengo de Almir seria bicampeão ou se finalmente o Bangu de Paulo Borges levaria o troféu. Quando o jogo acabou, os flamenguistas tiveram que assistir em silêncio o barulho que a pequena torcida do Bangu fazia para comemorar um titulo que perseguia a trinta e três anos. A torcida do Flamengo estava de bandeiras arriadas, enroladas, sem ânimo sequer para perceber que a noite caia e já era hora de ir embora. A festa pertencia ao Bangu. Não importa que não tenha sido uma festa como a torcida queria, sem manchas, limpa, bonita, resultado normal de noventa minutos de excelente futebol. Futebol que poucos times sabiam praticar como o Bangu daquele ano.

               Entretanto, a história foi bem diferente. A partida não terminou. Os jogadores brigaram. A torcida brigou. Cenas de violência e ódio que acabaram por inscrever na história do futebol, não apenas o jogo decisivo, mas a imagem definitiva de um homem que fez dos gramados sua praça de guerra, num misto de herói e vilão: Almir, cujo destino fez com que ele morresse, moço ainda, na porta de um bar, sete anos depois. Almir foi assassinado a tiros em Copacabana.

               O Bangu que chegou a última batalha depois de dezoito jogos, vencendo quinze, empatando dois e perdendo apenas um, jogou neste dia com a seguinte formação; Ubirajara, Fidelis, Mário Tito, Luis Alberto e Ari Clemente; Jaime e Ocimar; Paulo Borges, Ladeira, Cabralzinho e Aladim. Este foi o grande time do Campeonato Carioca de 1966 e muito bem dirigido pelo treinador Alfredo Gonzalez. O Flamengo na decisão era um time cheio de problemas técnicos e psicológicos. Valdomiro, Murilo, Jaime, Itamar e Paulo Henrique; Carlinhos e Nelsinho; Carlos Alberto, Almir, Silva e Osvaldo.

O JOGO E A BRIGA

               Aos três minutos do segundo tempo, a maioria dos torcedores rubros negros estavam calados. O placar de 3×0 para o Bangu era um sinal evidente da derrota, pois, além da diferença nos números, o adversário dominava o jogo. Os caminhos da reação pareciam fechados. Vinte e seis minutos e tudo estava na mesma. De repente, o futebol acaba, cedendo lugar a uma das maiores confusões já registradas no maracanã. O lateral Paulo Henrique do Flamengo se preparava para cobrar um lateral quando Ladeira tentou impedir e o provocou. Paulo Henrique respondeu com palavrões e recebeu uma bofetada do atacante do Bangu.

                Almir estava ligado na partida e disposto a tudo para não aumentar a humilhação. Era demais para uma tarde só. Primeiro, os frangos de Valdomiro, que mais tarde foi acusado pelo próprio Almir de ter se vendido. Depois, as contusões de Carlos Alberto e Nelsinho. Agora, o tapa de Ladeira. Almir perde inteiramente o controle. Partiu, desesperadamente, na direção do Ladeira, que preferiu correr, mas em direção a zaga do Flamengo. Itamar, um negro forte de 1,85 e chuteira 43, pula com os dois pés no peito do atacante, que cai. Almir que vinha correndo chutou sua cabeça. A esta altura, o gramado do maracanã já era palco de uma verdadeira loucura coletiva. Ari Clemente do Bangu, vem por trás de Almir e agride o pernambuquinho. Imediatamente é cercado por Silva, Itamar e o próprio Almir. A torcida do Flamengo, até então calada com a derrota, resolve agitar suas bandeiras, como se cada soco, cada pontapé, valessem como um gol que o time não conseguiu fazer. E num desabafo começa a gritar – Almir, Almir, Almir.

               Ladeira deixa o campo de maca. O juiz Airton Vieira de Moraes, conversa com o treinador Reganeschi, que consegue tirar Almir do campo. Mas, quando Almir vai descendo o túnel ouve alguém gritar “Volta Almir. Acabe de vez com a festa deles”. Foi o suficiente. Ele dá meia volta e parte novamente para o gramado. É ameaçado pelo goleiro Ubirajara e lhe dá um soco. É cercado por Ari Clemente, Mario Tito, Luis Alberto e Fideles. Almir começa a distribuir socos prá todo lado. Bate e apanha. Silva e Itamar correm em seu socorro. Com muito custo, os policiais conseguem dominar Almir e levá-lo definitivamente para fora do campo. Sua saída lembra um lutador de box deixando o ringue após um combate. Os espectadores se dividem em vaias e aplausos.

               No meio do campo, o juiz Airton Vieira de Moraes resolve expulsar cinco jogadores do Flamengo: Valdomiro, Itamar, Paulo Henrique, Almir e Silva. E mais quatro do Bangu: Ubirajara, Luis Alberto, Ari Clemente e Ladeira. Futebol não teve mais. Os banguenses deram a volta olímpica com poucos aplausos. A torcida do Flamengo vaiava e grita o nome de Almir. E assim, de forma lamentável terminou o Campeonato Carioca de 1966.

               O Bangu construiu sua vitória a partir dos 24 minutos do primeiro tempo. Ocimar cobrou uma falta de fora da área e marcou 1×0. Três minutos depois o Bangu aumenta para 2×0 através de Aladim. No intervalo, Almir avisou a todos que estavam nos vestiários do Flamengo. “Eles não vão ter volta olímpica”. Foi com esta disposição que o Flamengo voltou para o segundo tempo. E logo aos três minutos Paulo Borges marcou o terceiro gol. Ele deu um chapéu no zagueiro Ditão para um lado, para o outro e, com a bola ainda no ar, deu um chute violentíssimo, indefensável para o goleiro Valdomiro. A partir deste gol, o Bangu partiria para uma goleada histórica. O time estava bem, contrastando com um Flamengo que mais lembrava um moribundo. O Bangu foi o merecido campeão carioca de 1966, principalmente pela regularidade de sua campanha.

DECLARAÇÃO DE ALMIR ANOS DEPOIS

Anos depois daquela grande decisão, Almir deu a seguinte declaração: Para jogar aquela partida, eu tomei dois Dexamil. Outros jogadores tomaram também, porque nessas horas a bolinha aparece não se sabe como. Há sempre alguém oferecendo: quem quiser tomar, toma mesmo. Aquela decisão para mim era normal, não era a bolinha que iria me prejudicar. Havia outros problemas. Um deles era o juiz Airton Vieira de Moraes, o Sansão, que eu acho que também foi comprado pelo presidente do Bangu, o Sr. Castor de Andrade. Só isso explica a conversa que ele teve comigo antes mesmo de começar a partida. Nós ainda estávamos fazendo aquecimento muscular no campo, batendo fotografias, dando entrevistas, quando Sansão se aproximou de mim e já foi advertindo: – Olha aí, Almir, eu estou de olho em você. Muito cuidado que eu vou te expulsar. Eu nunca dei bola para juiz nem para o Sansão, que é forte, nem para Armando Marques que é metido a enérgico”.

               No vestiário, no intervalo, o clima era muito pesado. Nós tínhamos consciência de que não dava mesmo para vencer o Bangu. O Flamengo ia sofrer uma goleada humilhante. Além de nos golear o Bangu queria ensaiar um baile. Mas eu já havia decidido, eles não vão dar a volta olímpica. A essa altura o campo era uma zorra. Recebi o troco na hora. Como os banguenses queriam brigar, topei a parada. Olhei o bolo de jogadores e disse comigo mesmo: – Tudo o que estiver com camisa de listras brancas e vermelhas é inimigo. Comecei a distribuir socos e pontapés. Eu estava cercado por jogadores do Bangu, mas fui enfrentando todos eles. E todo mundo entrou na briga. Veio a policia e acabou com a festa”.  Tudo isto aconteceu  no dia 18 de dezembro de 1966, muitos anos já se passaram, mas certamente ainda está bem vivo na memória daqueles que estavam presente ao maior do mundo, assim como de todo torcedor brasileiro, pois foi um jogo que entrou para a seleção dos jogos históricos do nosso futebol nacional.

FLAMENGO  1966     –     Murilo, Itamar, Jaime, Valdomiro, Carlinhos e Paulo Henrique     –       Carlinhos, Nelsinho, Almir, Silva e Osvaldo

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