MENDONÇA FALCÃO: presidente da Federação Paulista de Futebol durante anos

                  João Mendonça Falcão nasceu em 04 de janeiro de 1918 no bairro do Brás, na capital paulista. Filho de Eduardo Mendonça Falcão e de Carmina Augusta. Foi um homem importante na história do futebol. Presidiu a Federação Paulista de Futebol durante alguns anos, a CBD, além de ter sido deputado estadual entre 1951 e 1969 e federal entre 1982 e 1987. Na juventude, foi motorneiro da CMTC. Algumas de suas passagens ficaram marcadas no anedotário da bola. Em 1963, por exemplo, como chefe da delegação da CBD, chamou os belgas de belgicanos antes da partida em que a seleção brasileira foi batida pela Bélgica por 5 a 1 atuando com oito atletas do Santos. Não a toa ficou famoso por suas gafes. Também foi prefeito de Guarulhos nomeado pelo governo do Estado, entre 9 de Abril e 12 de Julho de 1947.

                  Raramente os cartolas do mundo do futebol são reconhecidos publicamente pelo trabalho positivo nos clubes ou federações. Quase sempre os dirigentes são alvo de notícias intermitentes e sensacionalistas, que raramente são acompanhadas das devidas comprovações. Com João Mendonça Falcão, em especial, o repertório de denúncias, nunca provadas, sempre fizeram parte do noticiário do futebol nos anos dourados.

                 Em 1970 a revista Placar publicou uma matéria sobre a saída do presidente João Mendonça Falcão da cadeira de presidente na Federação Paulista de Futebol, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Em páginas de borda preta, Mendonça Falcão foi retratado como um autêntico vilão, um homem que fez da Federação seu escritório político e de cada funcionário um autêntico cabo eleitoral. Criticado e elogiado, temido e respeitado, em quinze anos Mendonça Falcão nunca encontrou adversários nas eleições e sempre foi eleito por aclamação.

                Ainda, conforme o artigo da revista, ao longo de seus mandatos na Federação, Mendonça Falcão criou cargos e nomeou amigos. Perseguiu vários clubes enquanto favoreceu outros poucos. No entanto, a importante revista não apresentou nenhum documento que pudesse autenticar o repertório de acusações apresentados naquela edição. A verdade é que Mendonça Falcão foi um administrador útil sem ser perfeito. Um homem de coragem que sempre defendeu o interesse dos paulistas na antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos). “Antes dele, os cariocas deitavam e rolavam nas decisões sobre mandos de jogo, julgamentos de jogadores e elaboração de tabelas”, afirmava Wadih Helu, então presidente do Corinthians naquela oportunidade.

              Conforme publicado na revista Placar de 15 de janeiro de 1971, Mendonça Falcão viajou inúmeras vezes para acompanhar os clubes paulistas nos confrontos decisivos do Torneio Robertão nos anos sessenta. Passando a mão pelo queixo barbeado, o pensativo Mendonça Falcão revelou: “Os paulistas podem ser derrotados no campo, mas não serão prejudicados nos bastidores por ninguém”.

              Na juventude foi goleiro do Clube Atlético Flor do Brás e trabalhou como motorneiro de bondes elétricos e funcionário da empresa de energia Light. Presidiu o Sindicato dos Eletricitários de São Paulo na primeira metade da década de quarenta. Ingressou depois na política como deputado estadual em 1950, pela legenda do Partido Social Progressista (PSP). Reeleito como deputado em 1954, sua trajetória como dirigente esportivo foi iniciada em 1955, quando sucedeu Mário Frugiuelle no comando da Federação Paulista de Futebol, função que desempenhou até 1970.

              Em 1957 foi designado como delegado da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), cargo que ocupou até 1963. Nesse período foi também presidente do Conselho Nacional dos Desportos. Nos pleitos de 1958 e 1962 foi reeleito deputado estadual pela legenda do PST. Com a extinção dos partidos políticos pelo Ato Institucional número 2, Mendonça Falcão filiou-se ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Pelo MDB foi reeleito pela quinta vez consecutiva no pleito de novembro de 1966. Acusado de tráfico de influência, o dirigente teve seu mandato cassado após decretação do Ato Institucional número 5 em 1968.

              Com vida política sempre atuante, Mendonça Falcão continuou ocupando vários cargos públicos e políticos até o ano de 1987. Assumiu por poucos meses a Secretaria Municipal de Esportes de São Paulo durante o governo de Jânio Quadros (1986-1989). Por motivos de saúde, Mendonça Falcão retirou-se da vida pública no final dos anos oitenta. Mas foi no palco do futebol que seu nome ganhou destaque popular. Na década de cinquenta o Jornal Mundo Esportivo publicou uma infinidade de matérias sobre seu trabalho na Federação.

             O periódico paulista criticava com veemência os gastos em suas viagens e cobrava mais austeridade nos combalidos cofres da Federação, socorridos constantemente por empréstimos bancários. Mendonça Falcão também era um mestre nos bastidores dos clubes, do selecionado paulista e do escrete canarinho. Em 1962 Mendonça Falcão viajou ao Chile como convidado de honra. Na vitória do Brasil sobre o Chile por 4×2, Garrincha foi expulso de campo junto com o chileno Honorino Landa.

            Como não existia suspensão automática, Landa foi afastado da próxima partida pelo tribunal da FIFA, enquanto que o árbitro Arturo Yamasaki não relatou ter notado qualquer irregularidade cometida pelo brasileiro. Então, alertados pelos chilenos, os homens da FIFA convocaram o bandeirinha uruguaio Esteban Mariño para depor. Como o bandeirinha não foi encontrado em lugar nenhum, o tribunal inocentou Garrincha por falta de provas para participar da final da Copa do Mundo.

            Apesar do envolvimento conhecido de João Hetzel no esquema do desaparecimento de Esteban Mariño, Mendonça Falcão teria colocado o uruguaio rapidamente em um avião direto para Paris. Além disso, Esteban Mariño também foi o bandeirinha na partida contra a Espanha, quando o Brasil venceu por 2×1, o jogo do polêmico pênalti de Nilton Santos. No cenário doméstico, graças ao tino político de Mendonça Falcão, Gimenez Lopes e Delphino Facchina deixaram diferenças de lado e entraram em acordo, o que trouxe paz no ambiente interno Palmeiras.

            Entre tantas passagens e manobras de bastidores voltamos ao ano de 1967. Em 17 de dezembro no Pacaembu, o São Paulo amargou um empate em 1×1 com o Corinthians. Com esse resultado, o caminho do título ficou complicado para o time do Morumbi. Paralelamente, o Santos esperava pelo resultado de um recurso promovido nos tribunais contra o Comercial de Ribeirão Preto, procedente da partida interrompida por falta de garantias na segurança. Fatalmente, o Santos ganharia esse ponto da partida contra o Comercial e seria o campeão paulista com um ponto na frente do São Paulo.

             Então, o presidente Mendonça Falcão entrou em ação. Imediatamente tratou de convencer os dirigentes santistas para retirar o recurso da partida contra o Comercial. Assim, com o empate em número de pontos na tabela de classificação, o campeonato teria que ser decidido em uma partida “extra” entre Santos e São Paulo, o que financeiramente seria muito atraente para todos os envolvidos. O Santos concordou em jogar a partida “extra” e venceu o São Paulo por 2×1, ficando assim com o caneco da temporada. O hábil e estrategista João Mendonça Falcão faleceu na cidade de São Paulo, no dia 13 de janeiro de 1997.

Evento realizado no Palácio do Planalto em 1961 – Da esquerda p/ direita: Gersio Passadore, Bellini, o então presidente da República Janio Quadros, Djalma Santos, Gilmar, João Havelange e Mendonça Falcão
Mendonça Falcão consolando Pelé depois da contusão que o tirou da Copa de 1962
Mendonça Falcão conversando com Rivelino e Dino Sani
Paulo Machado de Carvalho e João Mendonça Falcão  –  Dois ilustres Cartolas do futebol brasileiro
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