JOEL: Garrincha foi seu reserva na Copa de 1958

                Joel Antonio Martins nasceu dia 23 de novembro de 1931, na cidade do Rio de Janeiro. Foi um ponta direita que fez muito sucesso no Flamengo na década de 50, tanto é, que foi convocado por Vicente Feola para disputar a Copa de 58 na Suécia, onde ele saiu do Brasil como titular, enquanto Mané Garrincha era seu substituto direto.  Joel era econômico em tudo. Dava dribles precisos, apenas quando necessário, e fazia cruzamentos milimétricos. Alguns diziam, na época, que o seu jeito frio de jogar não combinava com a alegria e vibração do futebol brasileiro. Isso não o impediu de entrar na galeria dos melhores jogadores da história do Flamengo. Foram 111 gols com a camisa do rubro-negro. Das 404 partidas que disputou pelo time da Gávea, o ponta direita venceu 244, empatou 74 e perdeu 86. Conquistou o tricampeonato Carioca (1953, 1954, 1955) e o Torneio Rio-São Paulo de 1961 em cima do arqui-rival Botafogo, onde Joel iniciou sua carreira de jogador de futebol.

BOTAFOGO

               A carreira de atleta teve início no time do Colégio Santo Antônio Maria Zacharias, no bairro do Catete, onde Joel nasceu. Foi para os juvenis do Botafogo. Para os mais jovens alvinegros, que não conhecem totalmente a história do Botafogo, gostaria de dizer que Joel foi nascido e criado nas divisões de base de General Severiano. No Campeonato Carioca de Juvenis de 1950, por exemplo, disputou simplesmente as 20 partidas do Botafogo, formando num ataque que tinha o artilheiro Dino da Costa, vendido ao Roma em 1955. Joel fez o suficiente para ser uma referência quando o assunto é camisa sete, código de identificação dos jogadores que atuaram na ponta-direita pelo Botafogo. Em 1951, ainda com 19 anos de idade ele trocou o Botafogo pelo Flamengo.

              A saída de General Severiano para a Gávea, no entanto, foi conturbada. Após ser acusado de aliciar o jovem atleta de 19 anos, o Flamengo depositou aos cofres botafoguenses a quantia de Cr$ 100 mil (valor de um carro de luxo da época). Carlito Rocha presidente do Botafogo de 1948 até 1951 lutou até o último instante, na então Federação Metropolitana de Futebol, para manter o jogador. Chegou, inclusive, a ameaçar romper relações com o clube da Gávea, mas não teve jeito.

FLAMENGO

              Em 1951 chegou na Gávea onde fez muito sucesso. A bem da verdade, Joel fez sucesso antes de Garrincha. Quando este buscava sua afirmação, Joel já era o melhor da ponta-direita nos primeiros anos de Maracanã, e foi decisivo para que o Flamengo conquistasse o tricampeonato estadual de 1953, 1954 e 1955.  Já no segundo ano de clube, em 1953, no Torneio Quadrangular de Buenos Aires, disputado por Flamengo, San Lorenzo, Boca Juniors e Botafogo, Joel foi um dos grandes destaques, comandando o ataque do Flamengo que acabou conquistando o título ao bater o Botafogo no Monumental de Nuñez por 3×0, um dos gols marcado pelo próprio Joel. O ataque do Flamengo tricampeão teve algumas variações, mas sempre com Joel na ponta-direita. Mesmo vigiado por grandes marcadores, como o vascaíno Coronel e o botafoguense Nilton Santos, o ponta foi responsável por muitos gols do primeiro tricampeonato da Era Maracanã. Sua regularidade o levou à seleção brasileira.

               Dentro de campo, o ponta-direita driblador, foi um dos destaques do grande time do Flamengo no decorrer da década de 50. Ao lado de Rubens, Índio, Zagallo e Evaristo, formou o famoso Rolo Compressor, um dos maiores ataques da história do Clube. Torcedor do Rubro-Negro desde pequeno, Joel sempre afirmou que jogar no Mengão foi um sonho realizado. Joel se destacava por seus cruzamentos em curva, sempre perfeitos, e de vez em quando, na direção do gol, surpreendendo não só os zagueiros como os goleiros. Foi com cruzamentos assim que o ponta deu passes para dois dos três gols do Flamengo na final do Campeonato Carioca de 1954, contra o América. As boas atuações de Joel Martins, fizeram dele um dos jogadores convocados para a Seleção Brasileira de 1958, que disputara a Copa do Mundo da Suécia. O ex-atacante começou a Copa como titular, mas acabou perdendo a posição, de maneira inquestionável, para o gênio Garrincha. Entretanto, teve a honra de fazer parte do scratch Campeão Mundial pela primeira vez.

SELEÇÃO BRASILEIRA

               O primeiro jogo de Joel com a camisa que conquistaria o mundo nos anos seguintes foi no dia 13 de março de 1957. No Estádio Nacional de Lima, no Peru, pelo campeonato sul-americano, Joel formou o ataque da seleção ao lado de Evaristo, Zizinho e Pepe na goleada brasileira de 4×2 contra o Chile. Os gols brasileiros foram marcados por Didi (3) e Pépe. Uma semana depois o Brasil atropelou o Equador, 7 a1. Joel marcou dois gols e os demais foram marcados por Evaristo também dois, Índio, Pépe e Zizinho. Essa seleção era tão boa, que dois dias depois goleou a Colômbia por 9 a 0, com cinco gols de Evaristo, dois de Didi, um de Pépe e um de Zizinho. Somente no dia 14 de maio de 1958, que Joel marcaria outro gol com a camisa canarinho. Foi na goleada de 4 a 0 contra a Bulgária no Maracanã. Este foi também o último de sua carreira vestindo a camisa da nossa seleção.

               Para o mundial disputado na Suécia, Vicente Feola convocou dois pontas direita. Garrincha e Joel. Depois dos preparativos realizados aqui no Brasil, o técnico já viajou com o time escalado, aquele  que faria a estréia no mundial, ou seja, Gilmar, De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Dida, Mazzola e Zagallo. O primeiro adversário era a Áustria e este jogo aconteceu dia 8 de junho na cidade de Uddevalla. Com dois gols de Mazzola e um de Nilton Santos, o Brasil venceu por 3 a 0 com certa facilidade. Joel fez uma grande partida, na verdade, era o reconhecimento de que ali estava um dos mais cerebrais atacantes brasileiros, com a mesma importância tática de Zagallo, mas mais ofensivo que o futuro técnico do tri. Joel se saiu bem no primeiro jogo, quase marcou um gol.

             Veio a segunda partida e Joel continuava como titular da equipe, deixando mais uma vez Garrincha sem jogar. Não diria na reserva, pois naquele tempo não era permitido fazer substituições. O jogo foi contra a Inglaterra e o jogo terminou empatado em 0 a 0. Este jogo aconteceu no dia 11 de junho e foi realizado na cidade de Gotemburgo. A equipe brasileira foi exatamente a mesma que havia vencido a primeira partida. Veio a terceira partida e tudo mudou em nossa seleção.  

              Um grupo de jogadores liderados por Nilton Santos, Didi e Bellini, fizeram uma sábia sugestão aos homens da comissão técnica, ou seja, que fossem escalados, Zito, Vavá, Garrincha e Pelé, uma vez que a próxima partida seria decisiva para que a nossa seleção continuasse na competição e também porque o adversário seria a favorita União Soviética. E mais sabiamente, a comissão técnica aceitou a sugestão. Era o dia 15 de junho e lá estavam frente a frente, brasileiros e soviéticos. Dois minutos de jogo, Garrincha bate a três zagueiros e chuta violentamente contra a trave. Um minuto depois, era a vez de Pelé chutar no travessão. Na jogada seguinte, de Didi para Pelé, de Pelé para Vavá e surge o primeiro gol brasileiro.

              Não seria exagero afirmar, que aqueles três minutos de jogo, fizera modificar a própria história do futebol brasileiro e superado a infantilidade de 1930, a imaturidade de 1934, a inexperiência de 1938, o otimismo de 1950 e os nervos de 1954. A exibição de Garrincha contra os russos excluía a hipótese de outro ponta-direita aventurar-se por ali, por melhor que fosse. Garrincha não era o melhor, era um gênio em seu maior momento, e Joel era o primeiro a reconhecer-lhe o mérito. Pela Seleção Brasileira, Joel disputou 15 partidas e marcou 4 gols.

               Joel transferiu-se para o Valência em 1959 e voltou ao Flamengo para conquistar o Torneio Rio-São Paulo de 1961, marcando um dos gols do jogo decisivo contra o Corinthians. Este jogo aconteceu dia 23 de abril e o placar foi de 2 a 0 para o Mengão, gols de Joel e Dida. Neste dia o rubro negro carioca jogou com; Ari, Joubert, Bolero, Jadir e Jordan; Carlinhos e Gerson; Joel, Henrique Frade, Dida e Germano. Dois anos depois Joel abandonou o futebol. Continuou trabalhando no Flamengo, em suas divisões de base, com a missão de reconhecer os talentos que chegavam na Gávea. A última aparição pública de Joel foi em um programa de televisão no dia 30 de junho de 2002, poucas horas após o Brasil conquistar o pentacampeonato mundial em Yokohama.

               Joel foi convidado como representante do time responsável pela primeira das cinco estrelas do Flamengo, mas representava muito mais do que isso. Era um elo de ligação entre o futebol jogado por paixão e o esporte que movimenta centenas de milhares de dólares a cada mundial. E o sorriso franco de Joel não deixava dúvidas. Ele não se tornou um milionário com o futebol, mas mesmo aos 71 anos de idade ainda era apaixonado pela bola e pela seleção de seu país. Joel Antônio Martins faleceu no dia 1º de janeiro de 2003. Foi velado no Salão Nobre da Gávea e sepultado no cemitério de São João Batista, no Rio, com a bandeira do Flamengo no peito.

Em pé: De Sordi, Dino Sani, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar     –     Agachados: Mário Américo, Joel, Didi, Mazzola, Dida e Zagallo
Em pé: Servílio, Chamorro, Pavão, Tomires, Déquinha e Jordan    –     Agachados: Joel, Paulinho, Evaristo de Macedo, Dida e Zagallo.
Em pé: Djalma Santos, Bellini, Zózimo, Nilton Santos, Gilmar e Roberto Belangero   –    Agachados: Garrincha, Evaristo de Macedo, Índio, Didi, Joel e o massagista Mário Américo
SELEÇÃO CARIOCA    –   Em pé: Paulinho de Almeida, Castilho, Nilton Santos, Déquinha, Zózimo e Édson Machado    –     Agachados: Joel, Vavá, Didi, Índio e Pinga
Ataque do Brasil em 1958      –      Joel, Didi, Mazzola, Pelé e Canhoteiro    –    OBS: Cada jogador com um calção diferente
Em pé: Chamorro, Servílio, Pavão, Tomires, Déquinha e Jordan    –     Agachados: Joel, Paulinho, Índio, Evaristo de Macedo e Zagallo
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