DALMO: bicampeão mundial pelo Santos F.C.

                Dalmo Gaspar nasceu dia 19 de outubro de 1932, na cidade de Jundiaí – SP. Fez parte do grande time do Santos F.C. em sua época de ouro do futebol brasileiro, uma época em que o time praiano conquistou praticamente todos os títulos que disputou. Dalmo foi bicampeão da Taça Libertadores da América e bicampeão Mundial Interclubes jogando como lateral esquerdo do Peixe. Foi também o autor do gol da vitória sobre o Milan que valeu o título em 16 de novembro de 1963, no Maracanã, dia em que o Santos conquistou seu bicampeonato mundial. Este gol foi marcado aos 31 minutos do primeiro tempo através de uma cobrança de pênalti. Diante de tamanha responsabilidade, não se intimidou, pegou a bola e cobrou no canto esquerdo do goleiro italiano, fazendo 1 a 0, placar que ficou até o final da partida, levando o time praiano ao segundo título mundial, título que até hoje a torcida santista se orgulha e muito.

                Dalmo iniciou sua carreira no São Paulo de Jundiaí, passando para o amador e em seguida para a equipe principal, sendo negociado posteriormente com o Guarani de Campinas. Anos depois foi levado ao Santos F.C. No ano de 1957, o técnico Lula tirou-o da zaga e o fixou na lateral esquerda, onde jogou até encerrar a carreira. No ano seguinte sagrou-se Campeão Paulista, ano em que Pelé marcou simplesmente 58 gols somente no Campeonato Paulista, recorde que dificilmente será quebrado. Em 1959 sagrou-se campeão do Torneio Rio-São Paulo. Em 1960, 61, 62 e 64 também sagrou-se Campeão Paulista.              

               Nesse meio termo, conquistou dois títulos que foram sem dúvida os mais importantes de sua carreira, ou seja, o bicampeonato da Libertadores e o bicampeonato Mundial Interclubes. O primeiro título mundial foi contra o Benfica. Naquela época, o mundial de clubes era disputado em uma melhor de três partidas. O primeiro jogo foi no Brasil, mais precisamente no Maracanã, pois os dirigentes santistas, achavam que se jogasse no Pacaembu, torcedores do Corinthians, São Paulo e Palmeiras, iriam torcer contra. E no maior do mundo, o Santos derrotou o Benfica por 3 a 2, com dois gols de Pelé e um de Coutinho, enquanto que Santana marcou os dois gols para a equipe portuguesa. A segunda partida foi em Lisboa.

                O Benfica nunca tinha perdido no Estádio da Luz, por isso, sua torcida dava como certa aquela vitória. Tão certa, que já estavam vendendo ingresso para a terceira partida. No entanto, o que se viu naquele dia 11 de outubro de 1962, foi uma exibição de gala da equipe peixeira. Dizem os entendidos do futebol, que aquela foi a melhor exibição de Pelé e do Santos em todos os tempos. Já no primeiro tempo, o Peixe vencia por 5 a 0, com gols de Pelé (3), Coutinho e Pepe. Na etapa complementar, os portugueses chegaram a marcar dois gols através de Eusébio e Santana. Neste dia o Santos jogou com; Gilmar, Olavo, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Lima; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe.

               No ano seguinte a decisão foi contra o Milan. O primeiro jogo foi na Itália e o Milan venceu por 4 a 2, com dois gols do brasileiro Amarildo, um de Trapattoni e um de Mora, enquanto que Pelé marcou os dois gols santistas. A segunda partida foi realizada no Maracanã e o Santos venceu pelo mesmo placar da primeira partida. Os italianos chegaram a estar vencendo por 2 a 0, gols de Mora e Amarildo, mas o Peixe reagiu e fez quatro gols através de Pepe (2), Almir e Lima. Com estes dois resultados, foi preciso uma terceira partida e ela foi disputada novamente no Maracanã dois dias depois. Pelé estava machucado e não pode jogar, então o técnico Lula mandou a campo os seguintes jogadores; Gilmar, Ismael, Mauro, Haroldo e Dalmo, Lima e Mengálvio, Dorval, Coutinho, Almir e Pepe.

               O jogo começou com muito estudo, até que aos 31 minutos do primeiro tempo, o árbitro marcou um pênalti a favor do Santos. Pelé que era o cobrador oficial não estava em campo. Pepe era quem costumava bater os pênaltis, mas, segundo ele, por amizade e confiança em Dalmo, deixou que o lateral esquerdo cobrasse. E Dalmo cobrou do lado esquerdo do goleiro Balzarini, que acertou o canto, mas não conseguiu pegar. Santos 1 a 0 e este foi o placar final da partida. Dalmo jogou no Santos de 1957 até 1964 e nesse período marcou somente quatro gols com a camisa do Peixe, mas este do dia 16 de novembro de 1963, valeu por muitos. O lateral recorda que não conteve as lágrimas ao dar a volta olímpica no Estádio do Maracanã comemorando a valorosa conquista, e que até hoje se emociona ao lembrar daquela noite memorável e inesquecível.

               Outro fato que Dalmo também não esquece é que no dia em que marcou a penalidade máxima que deu o título ao Santos, Dalmo estava calçando um par de chuteiras com solado de borracha, presente esse que foi dado a ele pelo seu amigo Pelé, que por estar contundido não participou das partidas decisivas contra o time italiano no Brasil. Dalmo lembra como a decisão ficou marcada para sempre. “Este dia, para mim, foi surpreendente. Eu me realizei. Meu nome ia ficar na história do clube. O time se tornou guerreiro. Os que substituíram os titulares, substituíram acima da altura. Foi uma superação muito grande de garra, raça e união”.

               Com o estádio lotado, Dalmo recorda cada segundo que antecedeu ao chute histórico. “Era um barulho ensurdecedor, 130 mil pessoas gritando. Houve um desentendimento. Quando eu ia bater, dava a paradinha, (sou o inventor da paradinha), e o goleiro se adiantava. O árbitro mandou que eu não fizesse a paradinha e que o goleiro não se adiantasse. Fui frio e calculista, pois estava acostumado a cobrar pênaltis nos outros clubes que joguei. Quando corri para a bola, o estádio silenciou. Mas já estava decidido. Fiz o gol”. Apesar de ser sempre lembrado pelos maiores jogadores do país por ter tido participação decisiva no título mundial santista, Dalmo é protagonista de uma polêmica com Pelé. Durante muito tempo, o jogador jundiaiense garantiu ser ele o inventor da paradinha, forma de cobrar pênalti em que o batedor pára na frente da bola, espera o goleiro cair para um lado, e chuta no outro. Na sabedoria popular, diz-se que Pelé é o inventor da técnica.

               Na década de 60, Santos e Botafogo possuíam os dois melhores times do Brasil e do mundo. De um lado Pelé e do outro Garrincha, fora outros gigantes dos dois timaços. Num desses jogos, em São Paulo, os cariocas fizeram uma exibição inesquecível e, estranhamente, pouco badalada nos embates entre os dois melhores times do país naquela época. Aliás, sempre que se fazem referências aos jogos entre Botafogo e Santos daqueles tempos, só são lembradas as vitórias santistas, as goleadas de Pelé & Cia. Pois o Pacaembu estava lotado para ver mais uma. Pelé e Mané estavam em campo, mas o diabo estava era no corpo que vestia a camisa sete, não a dez.

              O lateral-esquerdo Dalmo, do Santos, viveu uma tarde de terror. Garrincha pegava a bola e, andando, levava Dalmo até dentro da grande área, onde o zagueiro não podia fazer falta. O Pacaembu não acreditava no que via: um ponta andar desde a intermediária até a área sem que o lateral tentasse tirar a bola, temeroso do drible desmoralizante. Até que Dalmo percebeu que tinha virado motivo de chacota dos torcedores, muitos dos quais nem santistas eram, mas que iam ao campo na certeza do espetáculo. E Dalmo resolveu bater antes de chegar à grande área. Bateu uma vez, Garrincha caiu, o árbitro marcou a falta e repreendeu o paulista. Bateu outra vez, Garrincha voltou ao chão, o árbitro marcou a falta e ameaçou Dalmo de expulsão, porque naquele tempo o cartão amarelo não existia.

              A terceira falta de Dalmo foi a mais violenta, como se ele estivesse pensando: “Arrebento essa peste, sou expulso, mas ele não joga mais”. Pensado e feito. Enquanto o gênio das pernas tortas estava estirado no bico direito da área dos portões principais do Pacaembu, o árbitro determinava a expulsão de Dalmo, cercado por botafoguenses justamente irados com seu gesto. Eis que, como um acrobata, Garrincha levanta-se, afasta seus companheiros, bota o braço esquerdo no ombro de Dalmo e o acompanha até a descida da escada para o vestiário, que, então, ficava daquele lado. Saíram conversando, como se Garrincha justificasse a atitude, entendesse que, para pará-lo, não havia mesmo outro jeito. O Botafogo ganhou de 3 a 0 e saiu aplaudido do estádio. Tinha visto uma autêntica exibição de gala do futebol, digna mesmo de Charles Chaplin, divertida, anárquica, humana, sensível e solidária.

              Dalmo foi titular durante os nove anos em que jogou no Santos, época áurea do time da Vila. Ele conta que conviver com  Pelé era fácil, pois na época o rei não ganhava o dinheiro que recebe hoje. “O dinheiro mexe com o profissionalismo dos jogadores. A nova geração só pensa no salário e não na camisa que veste. É preciso amor ao que se faz”, alerta sempre à garotada o ex-craque.

              Como membro de um dos melhores times da história do futebol mundial, Dalmo Gaspar acumula boas histórias para contar. Certa vez, em entrevista, contou que foi o primeiro jogador a utilizar uma chuteira de borracha no Brasil. Contou ele que, em uma excursão à Europa, Pelé teria ganhado uma chuteira moderna de borracha. O rei do futebol agradeceu, guardou o presente mas, no quarto do hotel, teria desdenhado o calçado e disse que deixaria ali mesmo, sem levar ao Brasil. Colega de quarto de Pelé, Dalmo então pegou a chuteira para si e usou durante a disputa dos campeonatos nacionais. Depois que encerrou a carreira, atuou como técnico de futebol durante alguns anos até abandonar o futebol. Se aposentou como funcionário público, após anos de trabalho na Prefeitura Municipal de Jundiaí. Faleceu dia 2 de fevereiro de 2015.

Em pé: Zito, Urubatão, Dalmo, Formiga, Getúlio e Laércio   –    Agachados: Dorval, Mário, Ney Blanco, Pelé e Pepe
Em pé: Fioti, Ramiro, Getúlio, Veludo, Zito e Dalmo   –    Abaixo: Tite, Álvaro, Pelé, Pagão e Pepe
Em pé: Dalmo, Zito, Geraldino, Calvet, Gilmar e Mauro Ramos   –    Agachados: Dorval, Lima, Coutinho, Pelé e Pepe
Em pé: Lula (técnico), Feijó, Dalmo, Zito, Fioti, Urubatão, Manga, Laércio, Hélvio e Getúlio   –    Agachados: Dorval, Hélio, Álvaro, Afonso, Pagão, Guerra, Pelé, Pepe e Macedo (massagista)
Em pé: Dalmo, Zito, Urubatão, Formiga, Getúlio e Laércio   –    Agachados: Dorval, Jair Rosa Pinto, Coutinho, Pelé e Pepe
Em pé: Zito, Ramiro, Manga, Urubatão, Getúlio, Dalmo e o massagista Macedo   –    Agachados: Dorval, Jair Rosa Pinto, Pagão, Pelé e Pepe
Em pé: Haroldo, Dalmo, Lima, Ismael, Gilmar e Mauro   –    Agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Almir, Pepe e o massagista Macedo
Em pé: Zé Carlos, Zito, Dalmo, Calvet, Mauro e Laércio   –    Agachados: Sormani, Mengálvio, Coutinho, Pelé, Pepe e o massagista Macedo
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