MÁRIO: um dos maiores dribladores do nosso futebol

                 Mário de Paula Lopes Junior nasceu dia 15 de novembro de 1926, na cidade do Rio de Janeiro. Foi um dos maiores dribladores do futebol brasileiro. Foi um ponta-esquerda que fez parte de marcantes formações alvinegras nos anos 50, conquistando o título paulista de 1951 e 1952, numa época de ouro do alvinegro de Parque São Jorge. Ele tinha uma peculiaridade, não gostava de marcar gols. Existem algumas versões para este fato raro num jogador de futebol. O primeiro é que estava atendendo o pedido de sua mãe, pois ela dizia que ao marcar um gol, a mãe do goleiro adversário iria sofrer muito. Outra história dizia que Mário havia iludido uma moça no Rio de Janeiro. Toda vez que o gol se apresentava vazio à sua frente, ele via o rosto enorme da tal moça, tomando todo o espaço entre as traves. E ficava sem forças para chutar. Por isso, na hora da conclusão, procurava sempre um companheiro mais bem colocado. Devido a sua enorme facilidade em driblar, era chamado de “malabarista”.

VASCO DA GAMA

               Começou a carreira no Vasco da Gama, do Rio de Janeiro em 1946, uma época em que o clube carioca montou um grande time. Em 1947, o Vasco vinha com um ataque de espantar qualquer defesa, Djalma, Manéca, Friaça (Dimas), Lelé (Ismael) e Mário (Chico). No comando da equipe, Flávio Costa, tricampeão (42/43/44) pelo Flamengo substituía Ernesto dos Santos, que fracassara no ano anterior. Depois de vencer com facilidade o torneio Estadual, marcando 40 gols em apenas dez jogos, o time continuou atropelando seus adversários no Carioca, estufando as redes 68 vezes em 20 partidas. No primeiro turno desse campeonato, o Vasco ganhou do Canto do Rio por 14×1, impondo a maior goleada da fase profissional do futebol carioca. O adversário ainda tentou evitar o vexame substituindo o goleiro no intervalo quando o jogo estava 5×0. Antes tivesse deixado o infeliz em campo. No jogo mais difícil contra o Botafogo de Heleno de Freitas, um empate sem gols garantiu o título ao Vasco. O Expresso terminou o campeonato invicto, com sete pontos à frente do alvinegro.

               Em 1949, o Vasco contou com a presença de Heleno de Freitas no comando do ataque juntamente com o ponta esquerda Mário. Se o time já havia assustado as defesas adversárias com goleadas históricas, nesse ano os goleiros perderiam a conta do número de vezes que buscariam a bola no fundo da rede. Foram 84 gols em apenas 20 jogos, um recorde. E mais um título invicto, ainda sob o comando de Flávio Costa, que no ano seguinte estaria no comando da nossa seleção na Copa do Mundo disputada aqui no Brasil. O rival Flamengo, que desde 1944 não ganhava do Vasco, voltou a sofrer com o Expresso. Os rubro-negros chegaram a fazer 2×0 no placar, em plena Gávea. Eufóricos, os flamenguistas davam como certa a vitória. No fim da partida, o placar anunciava 5×2 para os cruzmaltinos, para desespero do adversário. Neste jogo que deu o título ao Vasco de forma invicta, a equipe entrou em campo com a seguinte formação: Barbosa, Augusto, Eli, Jorge e Sampaio; Danilo e Manéca; Nestor, Ademir de Menezes, Ipojucan e Mário.

CORINTHIANS

               No ano de 1951, Mário foi contratado pelo Corinthians junto ao Bangu de Moça Bonita. Sua estréia com a camisa do alvinegro de Parque São Jorge aconteceu no dia 5 de agosto de 1951, quando o Corinthians empatou com a Portuguesa de Desportos em 3 a 3 pelo Campeonato Paulista. Os gols corintianos foram marcados por: Cláudio (2) e Baltazar, enquanto que os gols da Lusa do Canindé foram anotados por: Leopoldo, Julinho e Djalma Santos cobrando pênalti. Neste dia o Corinthians jogou com: Gilmar, Idário, Murilo, Touguinha e Alfredo; Roberto Belangero e Luizinho; Cláudio, Baltazar, Carbone e Mário. O técnico era Newton Senra.

               E já no seu primeiro ano no clube, sagrou-se campeão paulista. Depois de conquistar o título paulista no ano de 1941, o Corinthians ficou dez anos sem ganhar outro campeonato paulista. Porem na década de 50, montou um esquadrão que até hoje os corintianos lembram com muita saudade. Com um ataque formado por Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário, o alvinegro virou uma máquina de fazer gols e de dar espetáculos. No começo do ano, em fevereiro, o Timão conquistou o Torneio Rio-São Paulo com uma campanha de sete jogos, cinco vitórias, um empate e uma derrota. Além disso, terminou com o artilheiro da competição, Baltazar, com nove gols.

              No ano de 1951, o técnico era o ex-jogador Rato, que conseguiu dar uma grande alegria para a torcida corintiana, quando levou o Timão ao título estadual. Neste ano o Corinthians passou como um rolo compressor sobre seus adversários e alcançou a fantástica marca dos 103 gols em apenas 28 partidas. Durante o campeonato, aplicou várias goleadas, como por exemplo os 9×2 em cima do Comercial de Ribeirão Preto.  Outra goleada foi 7×1 no Jabaquara, ainda 7×2 em cima do Juventus e 4×0 sobre o São Paulo.

               Chegava o dia 13 de janeiro de 1952.  Estádio do Pacaembu recebeu neste dia, 35 mil pagantes. Juiz da partida foi Francisco Kohn Júnior e com duas rodadas para terminar o campeonato, enfrentou o Guarani de Campinas. Resultado da partida, 4×0 para o time do Parque São Jorge.  Gols de Jackson, Carbone e Baltazar (2).   Este gol de Carbone, foi o centésimo da equipe naquele campeonato, que terminou como artilheiro com 30 gols. Na última rodada, para fechar com chave de ouro, enfrentou seu maior rival, o Palmeiras e o resultado foi de 3×1 para o Timão.  Os gols corintianos foram marcados por: Carbone, Jackson e Luizinho, enquanto que para o Palmeiras marcou Rodrigues.  Julião do Corinthians e Liminha do Palmeiras foram expulsos de campo aos 41 minutos do segundo tempo.

               Este jogo aconteceu dia 27 de Janeiro de 1952 no Estádio Municipal do Pacaembu. Embalado com a magnífica conquista, o Corinthians começou o ano seguinte disposto a repetir a mesma façanha e conquista o bicampeonato paulista. Contando com os mesmos jogadores do ano anterior, as goleadas aconteceram novamente, como por exemplo, os 6×0 em cima do XV de Jaú, onde o atacante Baltazar marcou 5 gols. Outras vitórias importantes desse ano, foi 6×4 contra o Palmeiras e a grande virada em cima do São Paulo, 3×2, jogo este que antecipadamente deu o título de bicampeão paulista ao time do Parque São Jorge.

               A última partida de Mário com a camisa do Corinthians foi no dia 1 de novembro de 1953, quando o alvinegro derrotou a Ponte Preta por 3 a 2 pelo Campeonato Paulista. O jogo foi no Pacaembu num domingo pela manhã. Os gols corintianos foram marcados por: Cláudio (2) e Baltazar, enquanto que para a Macaca de Campinas marcaram: Bibe e Friaça, o mesmo que marcou o único gol da nossa seleção naquela fatídica final da Copa de 50, quando perdemos para o Uruguai por 2 a 1. Neste dia o Corinthians jogou com: Cabeção, Idário, Olavo, Clóvis e Murilo; Roberto Belangero e Luizinho; Cláudio, Baltazar, Mário e Simão. Com a camisa do Corinthians, Mario disputou 57 partidas. Venceu 45, empatou 6 e perdeu 6. Marcou 5 gols e sagrou-se Campeão Paulista em 1951 e 1952. Em 1953 Mário deixou o Corinthians, retornou ao Rio de Janeiro e foi jogar novamente no Vasco da Gama, onde ficou por um ano. No ano seguinte, foi jogar no Batatais F.C., que disputava a 2ª divisão do futebol paulista e foi por lá que ele encerrou sua carreira.

BAILARINO E MALABARISTA

               Mário era descendente de artistas circenses e, desde criança fazia malabarismo, até que começou a jogar futebol. Toda a vida jogou como ponta-esquerda e recebeu o apelido de “bailarino” porque ele era um verdadeiro fenômeno, fazendo os adversários de “joãos”. Driblava até a própria sombra, dizem que ele seria o Garrincha do lado esquerdo, porque ele era realmente impressionante. Ele driblava “pra burro”. Em 1949, o Vasco venceu o Flamengo por 5 a 2.  Quando o jogo já estava 4 a 2, o Mário pegou a bola e o locutor Adriano Neto que transmitia aquela partida, narrava assim “Mário pegou a bola, parou…  bom, agora ele está querendo se exibir… gol!!!”. Realmente foi muito engraçado.

               O Mário morava em Cascadura, que é um bairro vizinho de Cavalcanti. E foi no campo de Cavalcanti, que Mário certo dia estava assistindo uma pelada domingueira, quando ele pegou algumas pedrinhas e jogava ao alto e depois aparava e depois fazia outras embaixadas, o que bastava para chamar a atenção de todos os presentes, que acabavam deixando o futebol de lado só para ficarem prestando atenção nas brincadeiras que Mário fazia com aquelas pedrinhas.

               Mário só tinha um defeito: não gostava de marcar gols. É uma pena que a televisão não mostre para o público alguns de seus fenomenais dribles. Que o digam os velhos torcedores se não tenho razão. Certa vez, num jogo entre Corinthians e Portuguesa no Pacaembu, deu pena do Djalma Santos (ainda em começo de carreira). Djalma tomou um drible tão seco perto da baliza de escanteio, que saiu campo afora tropeçando e terminando por cair na pista de atletismo.

               Outro lance maravilhoso de Mário. Driblou toda a defesa adversária, passou pelo goleiro e pisou na bola na risca da trave. A torcida, enlouquecida, pediu a Mário que fizesse o gol. Ele atendeu. Foi um dos cinco gols que Mário fez com a camisa do Corinthians. Este jogo foi no dia 7 de setembro de 1952, quando o Corinthians goleou o XV de Jaú por 6 a 0. Os outros cinco gols foram todos de Baltazar. Mário morou por muitos anos no Brooklin Novo, zona sul de São Paulo, onde era dono de uma pequena empreiteira. Até os 80 anos ainda tinha um corpo de atleta e sempre que podia batia sua bolinha com os amigos.

Em pé: Cabeção, Idário, Goiano, Homero, Olavo e Julião    –     Agachados: Cláudio, Luizinho, Carbone, Mário e Baltazar
Linha de ataque do Vasco. Partindo da esquerda; Nestor, Ipojucan, Pacheco, Ismael e Mário
Essa linha de ataque marcou 103 gols no Campeonato Paulista de 1951. Partindo da esquerda; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário
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