PAULO PINGAIADA: goleiro e boiadeiro em Muzambinho (MG)

                           Paulo Aloísio Scotinni nasceu dia 4 de dezembro de 1930, na cidade de Elói Mendes, um bairro da grande Varginha, interior de Minas Gerais. No meio futebolístico ele era mais conhecido por Paulo Pingaiada. Foi goleiro e boiadeiro lá em Muzambinho-MG, nos anos 50 e 60. Ele foi levar uma boiada para Flórida Paulista  e lá resolveu ver um treino do time da cidade.

                          Era da Terceira ou da Quarta divisão paulista. Devidamente “calibrado”, pediu para jogar e fechou o gol. Foi contratado para experiência, e depois de 10 dias, Muzambinho “entrou em polvorosa” com uma grande “bomba”. “Saiu o nome do Paulo Pingaiada na Gazeta Esportiva”, gritavam as ruas. Só se falava naquilo.

                          É que a Gazeta Esportiva era uma espécie de Rede Globo de hoje pra nós lá da terrinha. E saiu pequenininho, no espaço das escalações. O Flórida tinha empatado fora e na formação do time estava lá: “Fulano (depois Paulo)”. Paulo, essas cinco letras representaram para o povo de Muzambinho uma medalha de ouro olímpica! Um momento épico! Antigamente, era assim, na época só do rádio e da Gazeta Esportiva, que chegava somente… à noite! Jogador não era visto, era “imaginado”.

                          Roberto Dias, Waldemar Carabina, Bianchini, Geraldo Scotto, Prado, Servílio, Castilho, Silvio, Julinho, Pelé e Pepe eram monstros, gigantes, inacessíveis, deuses, heróis em nossa imaginação. No cartaz de parede, a única mídia possível do jogo de domingo no Bar Majestic, quando o Muzambinho EC recebia o Radium de Mocóca, Alfenense, Cruz Preta, Esportiva de Guaxupé ou Passense, a gente arregalava os olhos porque o adversário vinha “enxertado” de um ex-juvenil do Olaria, um antigo jogador do Juventus ou Bonsucesso ou de um ex-aspirante da Ponte Preta! Isso era a glória, eram “profissionais” que iam jogar em Muzambinho!

                     Em 17 de janeiro de 1960 participou de um jogo histórico, atuando no gol de uma seleção sul mineira que enfrentou o Olaria Atlético Clube do Rio, que concentrado em Poços de Caldas, vinha goleando seguidamente por mais de 10 gols em jogos amistosos os times de Alfenas, Poços de Caldas, Botelhos, Guaxupé, Bandeira do Sul, Varginha, Machado e Campestre.

                   Na ocasião, o técnico Marcio Vieira Gomes, o “Delega”, reuniu os melhores da região e garantiu que “de mim eles não ganham”. Escalou-se, já veterano, “de camisa 11 recuado para marcar o artilheiro Jaburu” e disse: “o jogo será 10 contra 10! Eu e o Jaburu não jogaremos, vou marcá-lo homem a homem”, garantiu. Resultado da peleja: Olaria 12 x 0 Muzambinho. Nove gols de Jaburu.

                         Três goleiros foram utilizados na partida: Willian Peres Lemos (o Yashin de Minas Gerais), Paulo Pingaiada e Inhaque. Este último era cego de um olho e tomou um gol antológico de Jaburu, de falta. O jogador do Olaria chutou no canto em que Inhaque não enxergava, e quando a bola já estava no fundo da rede, ele ainda gesticulava tentando orientar a barreira. Após parar com a bola, esta figura pitoresca do futebol foi trabalhar como garçom. Tinha este apelido de Inhaque porque tomava muito conhaque.

                         Outro fato pitoresco daquela partida aconteceu quando Jaburu já somava oito gols e soltou um petardo incrível, para uma defesa mais incrível ainda de Paulo Pingaiada. O goleirão encaixou, sem dar rebote e desafiou o atacante carioca, rolando a bola em sua direção: “Chuta de novo, vamos ver se agora você marca”, disse Pingaiada. Jaburu, sem maiores dificuldades, anotou seu nono gol na partida e em seguida Paulo Pingaiada foi substituído por Inhaque, em uma dessas histórias maravilhosas, que o futebol não tem mais.

                         Vale a pena mais um registro importante sobre Jaburu. O atacante também atuou pelo Fluminense, e estava em campo no dia em que Pelé fez o gol que é considerado até hoje o mais bonito de sua carreira,  e que motivou  o jornalista Joelmir Beting a confeccionar uma placa para o feito, que acabou tornando a expressão “Gol de Placa” uma voz corrente quando alguém se reporta a um gol maravilhoso.

                          Este jogo histórico aconteceu dia 5 de março de 1961 no Maracanã e neste dia o Fluminense jogou com; Castilho. Jair Marinho. Pinheiro. Clóvis (Paulo) e Altair. Edmilson e Paulinho. Telê Santana (Augusto). Valdo. Jaburu e Escurinho. Enquanto que o Santos jogou com; Laércio. Fiotti. Mauro. Calvet e Dalmo. Zito e Mengálvio (Nei). Dorval. Coutinho. Pelé e Pepe (Sormani). O jogo terminou com a vitória santista por 3×1, com dois gols de Pelé e um de Pepe para o Peixe e Jaburu marcou o único tento do Tricolor Carioca. O árbitro da partida foi Olten Ayres de Abreu e o jogo foi válido pelo Torneio Rio-São Paulo.

HISTÓRIAS DE PAULO PINGAIADA

                           No jogo entre Muzambinho x Conceição Aparecida, em julho de 1966, Paulo havia tomado umas biritas no Bar do Oscar, pai do Zinho, o ponte esquerda das pernas tortas. O Paulo, em pleno domingo às 15 horas, tomou quatro doses de um pinga daquelas 100% álcool. E quando bateram uma falta, o Paulo pulou, caiu no chão com as duas mãos segurando alguma coisa a bola entrou no ângulo. Paulo levantou e o zagueiro Camila gritou “que foi isso Paulo?”. E Paulo respondeu “Tá sob controle, vou repor a bola em jogo.” E o zagueiro respondeu “ A bola entrou”. Então Paulo Pingaiada se vira e diz; “Então são duas bolas, porque esta eu peguei”. Mas não havia outra bola. O calor de 32 graus fez com que ele pegasse a bola imaginária.

Certo dia apareceu um goleiro novo lá no time de Muzambinho. Paulo Pingaiada foi recepciona-lo e perguntou o nome do rapaz, que respondeu “meu nome é Paulo”. E o veterano abrindo um sorriso disse “então somos xarás, pois eu também me chamo Paulo”. E a conversa continuou “e você gosta de beber?”  O rapaz respondeu que não bebia nenhum tipo de bebida alcoólica.  Então o veterano disse “Sendo assim, como eu bebo todas e por isso me apelidaram de Paulo Pingaiada, como você não bebe nada, vou passar a chama-lo de Paulo Guaraná”. 

                          Certa vez no jogo entre Muzambinho x Fabril de Paraguaçu, ele havia tomado uma cachaça (Aquela que matou o guarda). Ele viu duas bolas, pulou e pegou uma, a outra (real) entrou. Paraguaçu 1 x 0 Muzambinho. Era grande pessoa, boiadeiro, amansava cavalos chucros e montava boi bravo em rodeios. Paulo Pingaiada faleceu dia 22 de maio de 2002, no Asilo São Vicente de Paulo, em Muzambinho, Minas Gerais.

1960   –    Em pé: Édson Dino, Tubé, Luiz Montanari e Paulo Pingaiada   –    Agachados. Luis Antonio de Carvalho (Bigude), Cesar Bianchi e Zé Maria
Tente é o segundo, seguido por Braguinha, Carlos Miguel (Boca de Véia), Lezinho, Edson Dino, Orlando, Cesare Bianchi, Camila, Paulo Pingaiada, Pininho, Zé Eduardo (Du Botelho). O técnico é Nadinho
Bandeirantes Futebol Clube, de Muzambinho   –    Em pé: Tenente Megale, Nei Baiano, Camila, Zé Milton, Tininho, Fominha, Alúcio, Dedém, Paulo Pingaiada e Pedro Viola   –    Agachados: Ronaldo Ésper, Ivan Surdão, Ditinho, Jamilinho Elias, Zé Orlando, Márcio Luiz, Pedrinho do Monte Belo, Tôti, Corote e o saudoso massagista Renê Bernardes
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