LARA: tem seu nome no hino do Grêmio

                 Eurico Lara nasceu dia 24 de janeiro de 1897, na cidade de Uruguaiana – RS. Foi um dos maiores goleiros que já vestiu a camisa do Grêmio de Porto Alegre.  Dizia-se na época, que na cidade fronteiriça existia um arqueiro que, quando jogava, o time não perdia. Não demorou muito para que as informações sobre o atleta chegassem aos ouvidos dos dirigentes gremistas, os quais imediatamente deslocaram olheiros para a região. Sem demonstrar interesse em atuar como jogador de futebol em Porto Alegre, Eurico Lara acabou sendo transferido de sua terra natal para uma corporação da capital graças a pessoas influentes dentro do Grêmio. Chegou no tricolor gaúcho em 1920, culminando com a conquista do Campeonato da Cidade de Porto Alegre. E assim começou seu eterno amor pelo Grêmio Portoalegrense.

INÍCIO DE CARREIRA

                 Dois anos depois, alem de defender a seleção do Exército que venceu o campeonato entre as classes armadas, começou a construir sua reputação como goleiro no centro do país, chegando a seleção brasileira que disputaria o Sul-Americano. Num jogo entre paulistas e gaúchos realizado no estádio do Parque Antarctica, Lara fechou o gol em uma partida em que os donos da casa venceram por 4 a 2 mas, no final, o goleiro do sul foi ovacionado por uma multidão que invadiu o gramado para cumprimentá-lo. Afinal, não era qualquer um que conseguia defender mais de 20 chutes desferidos pelo atacante Friendereich, o maior nome do futebol brasileiro naquela época.  Apesar de tudo, e para surpresa de todos, Lara não foi convocado para a seleção.

                Em 1930 chegou a tenente do Exército, onde acompanhou as forças revolucionárias que, naquele ano escreveram uma página importante para a história do país. Sem abandonar a farda, estava sempre pronto para defender as cores do Grêmio. Em setembro de 1935, já doente de tuberculose e com ordem dos médicos para não mais atuar, Lara decidiu entrar em campo para o grenal decisivo do campeonato portoalegrense daquele ano, chamado de “Campeonato Farroupilha” por coincidir com os festejos do centenário da Revolução Farroupilha. O Grêmio, com um ponto a menos, precisava vencer o Internacional para levar o troféu.

                Foi uma de suas maiores atuações com a camisa do Grêmio perante uma torcida maravilhada e sabedora do esforço realizado pelo atleta para poder participar da partida. Vitória do Grêmio por 2 a 0. Lara jogou o primeiro tempo. No intervalo, foi substituído e levado de ambulância para o Hospital Beneficência Portuguesa, de onde nunca mais saiu. No dia 6 de novembro de 1935, dois meses depois do Grenal Farroupilha, o herói gremista morria. Uma multidão foi às ruas para chorar a perda de um dos maiores desportistas do país. O enterro de Lara parou Porto Alegre e o atleta entrou para sempre na história do Grêmio e no coração de quem teve o prazer de vê-lo atuar.

               É o único atleta do Grêmio que teve seu nome citado no Hino composto por Lupicínio Rodrigues para o cinquentenário do Grêmio (1953), hino este que acabou sendo adotado de forma oficial pelo clube. O trecho é o seguinte: “Lara, o Craque Imortal, / Soube o seu nome elevar. / Hoje, com o mesmo ideal, / Nós saberemos te honrar.” Hoje em dia, há pouquíssimas pessoas vivas que viram Lara jogar; por isso, ele se tornou praticamente uma lenda da história do Grêmio.

LENDAS SOBRE LARA

               Salim Nigri, homem importante na história do Grêmio, falou uma vez ao Gaúcha Entrevista, uma das diversas lendas de Lara. Segundo ele, um dirigente do clube porto alegrense estava em Uruguaiana e havia visto um jogo de futebol do exército, do qual Lara fazia parte. Ele ficou muito impressionado com o camisa 1 e decidiu contratá-lo para o Grêmio. Na vinda, Lara foi deslocado do regimento de Uruguaiana para Porto Alegre, para poder jogar no clube.

               Diz a lenda que, no primeiro treino, ao entregarem a camiseta de goleiro a Lara, ele perguntou para o treinador: “Como assim? Por que recebi essa camiseta? Não sou goleiro”. Todos ficaram surpresos. Ele explicou que como não havia mais ninguém para ir no gol em Uruguaiana, ele havia sido requisitado para jogar como goleiro, mas não atuava na função. Se este episódio realmente ocorreu, não se sabe, mas Lara acabou se tornando uma lenda também pelo que fez nos anos seguintes pelo Grêmio.

               Outra lenda seria que Lara, em certa partida, quebrou um dos braços, mas não queria sair. E também conta-se que defendeu todas as bolas até o fim do jogo, mesmo com a lesão. Segundo outra lenda, Eurico Lara teria morrido em pleno “Grenal Farroupilha”, após defender um pênalti chutado pelo seu próprio irmão. Na verdade, ele morreu dois meses depois, não houve pênalti na partida, e nenhum irmão de Lara jamais jogou no rival Internacional. Nem todos os adjetivos que podem ser dados a um goleiro seriam suficientes para dimensionar e quantificar a importância de Eurico Lara para o Grêmio! Sua trajetória no Tricolor é um misto de história e ficção. E se o nome de um goleiro pudesse servir de sinônimo para o termo “goalkeeper”, esse nome seria Eurico Lara, sem dúvida…

               Como já foi dito, existem muitas lendas envolvendo o goleiro gremista Lara, no entanto, a mais falada no Rio Grande do Sul, diz que Lara estava hospitalizado, mas teria sido autorizado a assistir a um Grenal decisivo. O empate dá o título ao Grêmio. Com o jogo já no final, o empate em 0 x 0 persiste. Então, inesperadamente, o juiz assinala um pênalti contra o Tricolor. A torcida gremista gela e Lara levanta-se do meio dela, entra no vestiário, coloca o uniforme, calça as botinas e encaminha-se para a meta sob o aplauso que vêm do “pavilhão”. O atacante, nervoso com a presença do grande goalkeeper sob as traves, respira fundo e bate violentamente na bola.

               Lara cai para o lado e a “encaixa” com firmeza. Seus companheiros correm para abraçá-lo, mas ao aproximarem-se, percebem que ele permanece imóvel, ainda abraçado à bola. Lara teria morrido após defender esse pênalti e garantido ao Grêmio o título de Campeão Metropolitano de 1935, denominado Campeonato Farroupilha, em homenagem aos 100 anos da Guerra dos Farrapos. Os fatos que envolveram Lara naquele evento assumiram, com o tempo, dimensões épicas por conta do imaginário popular. Mas a lenda é aceita como verdade por muitos gremistas até hoje, mais como espécie de tributo ao maior de todos os goleiros…

               De fato, Eurico Lara participou do Grenal que decidiu o Campeonato Metropolitano de 1935. A história nos conta que, alguns dias antes, porém, o Grêmio realizou um jogo contra o Santos e venceu por 3 a 2. Durante a partida, o santista Mário Seixas chocou-se com Lara. Foi tão grave a lesão, que Lara foi conduzido imediatamente para o hospital e lá se descobriu um problema cardíaco, além de outras enfermidades pulmonares que minavam seu enorme corpo, então com 37 anos de idade.

               O Grenal decisivo do Campeonato Farroupilha dava a vantagem do empate ao adversário. Por tudo isso, os torcedores amargos já consideravam seu time campeão. A bola que Eurico Lara tão bravamente defendeu naquele jogo épico, repousa hoje em meio aos incontáveis troféus conquistados pelo Tricolor ao longo de mais de um século, assim como o troféu do Campeonato Farroupilha, o último título conquistado por Eurico Lara…

               Para resumir a história de Lara no Grêmio, basta citar os títulos que ele conquistou com a camisa do tricolor gaúcho: Campeão da Cidade: 11 vezes (1920, 1921, 1922, 1923, 1925, 1926, 1930, 1931, 1932, 1933 e 1935).  Campeão Gaúcho: 4 vezes (1921, 1922, 1926 e 1931). Talvez, não haja no país, a história de um atleta tão identificado com o clube que seu nome tenha ido parar na letra do hino oficial da instituição. Esse é o caso de Eurico Lara, um goleiro natural de Uruguaiana que, na época do amadorismo, defendeu as cores do Grêmio em 16 temporadas (de 1920 a 1935). Graças aos seus elevados dotes morais e técnicos, Lara, ainda hoje, é tido como símbolo do jogador gaúcho e uma verdadeira lenda dentro destes mais de 100 anos de história do Grêmio.

               Lara jogava mesmo como se estivesse disposto a dar a própria vida pelo clube. Foi o goleiro mais corajoso que já se viu em toda vida. Treinava como um louco e em campo era um gigante. Na verdade, morreu dia 6 de novembro de 1935, vítima de aneurisma. A lenda de que teria caído em campo se propagou para enaltecer sua imensa valentia. O Índio de Uruguaiana, como era chamado, não acreditava em bola perdida. Ia em todas, não tinha medo de nada. Era um homem tímido e reservado, mas dotado de talentos incomuns, sobretudo entre goleiros da época. Sua garra era notável, talvez originado da vida militar que seguiu por toda a vida. Tudo isto era fruto de um sentimento interno, superior, inquebrantável, nato dos grandes ídolos do povo.

O goleiro Lara com o uniforme que usava quando defendia o Grêmio de Porto Alegre

Postado em L

Deixe uma resposta