CLUBE ATLÉTICO MINEIRO – fundado em 25 de março de 1908

                                        Nos primeiros anos do século passado, Belo Horizonte tinha uma população de 25.000 pessoas. Fundada em 1897 para ser capital do Estado de Minas Gerais em substituição a Ouro Preto, a cidade pouco crescera: a crise econômica bloqueou as iniciativas do governo para instalar um comércio e uma indústria que acelerassem o progresso da nova capital. Mesmo assim, a maioria da população morava em torno de um centro urbano cheio de casas bem construídas e não demonstrava em seus hábitos e trajes as dificuldades financeiras da época.

                                       Havia escolas e fundaram-se as primeiras faculdades – de Medicina, Direito e Engenharia – e as colônias de estrangeiros começaram a se formar. Em 1903 chegou à cidade o acadêmico de Direito Víctor Serpa, um carioca recém-chegado da Suíça, onde aprendeu a jogar futebol. Durante seu primeiro ano na cidade, ele trabalhou na instalação de um teatro, dirigiu peças e traduziu textos de autores ingleses e franceses. Em 1904 Serpa notou que faltavam diversões na cidade e lembrou-se do futebol, algo que poderia dar certo num lugar tão plano e cheio de estudantes.
No dia 10 de junho, Serpa e dezenas de companheiros fundaram o Sport Club Foot-Ball, primeira associação esportiva de Minas Gerais. 
O campo foi construído na Rua Sapucaí, perto da antiga estação da Central do Brasil, e no dia 3 de outubro promoveram a primeira partida de futebol na capital, entre dois times do próprio clube: o de Víctor Serpa e o de Oscar Americano. Venceu o de quem sabia mais: o de Serpa, por 2 x 1. O esporte pegou logo e foram fundados mais dois clubes: o Plínio F. C. e o Club Athlético Mineiro – que não era o Galo de nossos dias.

                                       Criaram a Liga de futebol e disputaram o primeiro campeonato, mas o título não foi definido porque as chuvas estragaram o campo e os jogadores, todos estudantes, entraram em férias. Víctor Serpa voltou então para o Rio, onde morreu em 1905. Mas ele deixara criado e desenvolvido o futebol em Minas, onde outros clubes surgiram nos anos seguintes: Estrada F.C., Juvenil F.C., Viserpa F.C. (em homenagem a Víctor Serpa) e o Brasil F.C. O Athlético passou a chamar-se Athlético Mineiro Foot-Ball Club.

                                       O entusiasmo pelo futebol era maior durante o período de aulas. Nas férias, cada um se ocupava de outras coisas e o máximo que se conseguia era armar peladas sem interesse. Alguns clubes, como o Brasil e o Viserpa, desapareceram. O grupo de rapazes descontentes com a situação foi aumentando e os jogos sendo substituídos por passeios dominicais pelo Parque Municipal, para frustração dos que queriam mesmo jogar futebol. Foi então que, liderados por Margival Mendes Leal, Mário Toledo, Raul Fracarolli e Augusto Soares, a turma de rapazes marcou uma reunião sob as árvores do Parque Municipal.

                                       No dia 25 de março de 1908 todos mataram aula de manhã e, rapidamente, decidiram fundar um novo clube em Belo Horizonte “para sufocar todos os outros”.  Nascia o Atlético Mineiro Futebol Clube – herdado o nome do outro Athlético, que já não existia. Participaram do célebre encontro: Margival Mendes Leal, Sinval Moreira, Mário Neves, Raul e Hugo Fracarolli, Mário Lott, Carlos Maciel, Eurico Catão, João Barbosa Sobrinho, Aleixanor Alves Pereira, Antunes Filho, Mário Toledo, José Soares Alves, Horácio Machado, Augusto Soares, Humberto Moreira, Júlio Menezes Melo e Benjamim Moss Filho.

                                       Outros, não puderam comparecer à reunião, tão logo souberam da fundação do clube aderiram à ideia: Francisco Monteiro, Jorge Dias Pena e Mauro Brochado. Ninguém se preocupou em comemorar: começaram imediatamente a trabalhar para arrecadar fundos e compra uma bola. O grupo cresceu e o ponto de encontro era a casa número 317 da Rua Guajajaras, onde morava dona Alice Neves – uma senhora sem qualquer parentesco com qualquer dos rapazes, mas que se tornou a madrinha do novo clube, dando palpites e criando a primeira torcida feminina de futebol no Brasil.

                                       Ela convidou filhas de suas amigas e vizinhas e colocou todas para trabalhar, como se fossem funcionárias do Atlético, confeccionando os primeiros calções – que mais pareciam bermudas longas, camisas, gorros e até meias. Para dona Alice, ficou a tarefa de bordar a primeira bandeira alvinegra. O mais difícil foi encontrar uma bola para comprar. O comércio de Belo Horizonte refletia as dificuldades do começo do século: só tinha o necessário. Mas, de tanto procurar, os rapazes encontraram uma, já usada, mas que dava para o gasto.

                                        A primeira diretoria não teve descanso. Foi eleita sem contestação: Margival Mendes, presidente; Mário Lott, secretário; e Eurico Catão, tesoureiro. Em seu primeiro ano, o Atlético preparou sua equipe, treinada por Chico Neto: Eurico, Mauro e Leônidas; Raul, Mário Toledo e Hugo; Francisco, Mário Lott, Marginal, Horácio e Benjamim. Para a estreia oficial do Atlético, dia 21 de março de 1909, contra o Sport Club, Chico Neto fez três modificações no ataque: Mário Neves no lugar de Francisco, Aníbal Machado no de Mário Lott e Zeca Alves no de Horácio.

                                       O técnico deve ter adivinhado: o Atlético venceu o Sport por 3 x 0, gols de Aníbal Machado, Zeca Alves e Mário Neves. O campo do Sport – onde hoje fica a Secretaria da Agricultura, ao lado da estação rodoviária- ficou lotado. E voltou a encher nas duas revanches que o Atlético deu ao Sport. Mais de 3.000 pessoas assistiram a outras vitórias atleticanas: 2×0   e   4×0.   O Sport Club não resistiu: os noves gols que levou em três jogos foram suficientes para decretar sua morte, e quase todos os seus integrantes passaram para o quadro atleticano, tornando-o mais forte ainda.

                                       Em Belo Horizonte não havia time que se comparasse a ele, cuja primeira derrota demorou muito para acontecer. Foi na primeira partida intermunicipal, dia 12 de maio de 1912, contra o Instituto Granbery, de Juiz de Fora: 1×5. Os atleticanos pediram revanche e perderam novamente: 0x3, no dia 7 de setembro, em Juiz de Fora. As derrotas em nada alteraram a vida do clube, que tratou de formar sua infra-estrutura e ganhou da Prefeitura um terreno para construir seu campo e sede. Ficava na Rua Guajajaras, entre a São Paulo e a Curitiba.

                                       Limparam o terreno, taparam os buracos e fincaram as traves: o travessão era uma corda esticada; o gramado tinha tamanho irregular, mas ficou assim mesmo. Nos primeiros dias, roubaram as traves. Margival não gostou e achou melhor escolher outro local.

                                       Conseguiu trocar a área de Guajajaras por um quarteirão na Avenida Paraopeba (hoje, Augusto de Lima), entre as ruas Curitiba e Santa Catarina. Mas ali também não durou: o governo do Estado, que também estava se organizando, requisitou o terreno para a construção da Secretaria da Educação (hoje, Minas centro) e o Atlético passou então a ocupar o campo que foi do Sport Club, ao lado da estação rodoviária.

                                        Foi em assembleia geral convocada para a noite de 25 de março de 1913 que os sócios e diretores do Atlético Mineiro Futebol Clube decidiram mudar o seu nome para Clube Atlético Mineiro. E foi com sua nova e importante personalidade que o time disputou o primeiro torneio inter-clubes organizado pela recém-fundada Liga de Futebol de Belo Horizonte. E ganhou, derrotando o Yale (que mais tarde desapareceria, para tornar-se Palestra Itália, Ypiranga e Cruzeiro) por 2 x 0 , o América por 3 x 0   e   1 x 0, e, finalmente, o combinado Yale-América por 2 x 0.

                                       Em 1915, organizado o primeiro campeonato oficial da cidade, o Atlético voltou a brilhar e conquistou o TÍTULO DE PRIMEIRO CAMPEÃO DE BELO HORIZONTE. Essas vitórias tornaram o alvinegro um clube simpático, popular e livre de qualquer tipo de preconceito, do qual podiam fazer parte brancos, negros, portugueses, italianos, japoneses, ricos, pobres, estudantes, operários. O Atlético firmava-se como time do povo, ao contrário de outros, como o América, por exemplo, que tinha um bom time de futebol mas não permitia o ingresso de qualquer um: apenas estudantes – de Medicina, de preferência- ou ricos.

                                       O Yale, por sua vez, era o clube preferido dos italianos, que não gostavam de se misturar. Assim, não havia barreiras para o Atlético crescer, e ele de fato cresceu, tanto que passou a ser convidado a jogar em outras cidades, coisa rara na época. Em 1926, enquanto construía seu estádio definitivo na Avenida Olegário Maciel (em terreno doado pelo Estado para substituir o que lhe for a tomado na Avenida Paraopeba), o Atlético ganhou seu segundo título regional e repetiu a conquista em 1927, provando que começara mesmo a encarar o campeonato da Liga com a devida seriedade.

                                       Nessa época, seu time era, além de mais poderoso, o que reunia o maior número de estrelas. A principal delas, Mário de Castro, era um goleador incomparável: costumava driblar o time adversário inteiro antes de mandar a bola para as redes.

                                       Primeiro jogador atleticano a ser convidado para jogar na Seleção Brasileira, Mário recusou o chamado e continuou a marcar seus gols pelo Atlético. No dia 30 de maio de 1929, o Atlético trouxe à Belo Horizonte o mitológico time do Corinthians para a festa de inauguração de seu Estádio Presidente Antônio Carlos. A torcida ouvia falar na grande equipe paulista mas muitos até duvidavam que ela existisse realmente. Por isso nunca se viu tanta gente reunida em Belo Horizonte – nem mesmo nos comícios do presidente Antônio Carlos, um político que revolucionou a história mineira. Já pela manhã o estádio estava lotado.

                                       Houve missa campal e a festa se encerrou da melhor maneira possível. Com uma bela vitória por 4 x 2, o primeiro grande triunfo interestadual do Atlético projetou definitivamente o gênio de Mário de Castro, autor de três dos quatros gols atleticanos (o outro foi de Said). A Revolução de 1930, que arrancou os mineiros de seu silêncio num grito que levou Getúlio Vargas pela primeira vez ao poder – em menos de uma semana os rebeldes ocuparam Belo Horizonte -, fez o Atlético, pela única vez em sua história, afastar-se do Campeonato Estadual.

                                       Quando a situação política foi contornada, o Atlético voltou à disputa, sendo campeão em 1931 e bicampeão em 1932. O clima de tensão vivido no Estado em 1936, que deixou as Forças Armadas de prontidão e o povo na expectativa de algum golpe, foi amenizado pela realização do Congresso Eucarístico em Belo Horizonte e, dessa vez, não interrompeu a história do Atlético. O time não parou: foi bicampeão mineiro com nove vitórias em doze partidas e ganhou direito de disputar o primeiro campeonato interestadual de clubes, promovido pela Federação Brasileira de Futebol. Numa época que o fator campo tinha influência decisiva nos jogos, principalmente os interestaduais, o Atlético foi a São Paulo e conquistou o título derrotando a Portuguesa de Desportos por 3×0 na partida final.

                                       Os “Campeões dos Campeões” voltaram a Belo Horizonte e foram carregados pelo povo da Estação Central à sede social de Lourdes, numa bela festa organizada pelo presidente Thomaz Navez. O badalado título redobrou o prestígio do clube. Do interior – e até de outros Estados- cresceu o número de jogadores que chegavam em busca de uma chance de jogar no time campeão do Brasil. Como já havia acontecido com Brant, Said, Jairo, Mário de Castro, Kafunga, Mário Gomes, Binga e outros, apareceram novos craques no Estádio Presidente Antônio Carlos – Zezé Procópio, Florindo, Alfredo Bernardino, Guará, Nicola, Cafifa, Selado, Manja, etc.

                                       Campeão Mineiro de 1941, o Atlético realizou uma façanha inédita no futebol brasileiro conquistou o bicampeonato, em 1942, sem perder um único ponto: jogou 11 vezes e venceu as 11. No mesmo ritmo de desenvolvimento imposto por JK a Belo Horizonte – asfaltando as principais avenidas e ruas centrais, construindo a Pampulha e projetando o talento do promissor Oscar Niemeyer com suas obras na Lagoa -, o Atlético viveu anos de invejável crescimento. A torcida, seguramente, dobrou em relação à do América, segundo clube do Estado.

                                       Em 1947, o time ganhou o bicampeonato e o título de campeão do Cinquentenário de Belo Horizonte, celebrizando-se como um dos maiores que já pisaram gramados mineiros: Kafunga, Murilo e Ramos; Mexicano, Zé do Monte e Afonso; Lucas, Lauro, Carlyle, Alvinho e Nívio. Com base nessa equipe, o Atlético desafiou o inverno europeu e partiu para a primeira excursão de um clube mineiro ao Velho Mundo.

                                       Venceu quatro campeões nacionais entre seis adversários que derrotou, empatou duas e perdeu duas partidas jogando sob temperaturas de até 6 graus negativos. Sua torcida ficou tão empolgada com o desempenho que, na volta a Belo Horizonte, deu ao time o título de “Campeão do Gelo”.

                                       Ainda no embalo da grande fase dos anos 40, o Atlético partiu para mais uma conquista inédita: o penta. E no ano de 1947, o Atlético montou um verdadeiro esquadrão, praticamente imbatível. Começou a campanha em 52, viveu sua maior emoção em 55 – decidindo contra o Cruzeiro o tri de 54 – chegou à gloriosa vitória em 56 – outra vez contra o Cruzeiro, que já desbancara o América da posição de segundo do Estado. A garra demonstrada na busca da vitória, o heroísmo dos jogadores e a dedicação da torcida tornaram o Atlético conhecido como Galo Carijó – um time que lutava pela vitória até o fim…

                                      Depois do campeonato de 58 e do bi em 63, o clube passou por uma transformação política e administrativa, entrando a era do Mineirão em completa reformulação. Enquanto tratava de reforçar seu time com alguns craques contratados fora de Minas, o trabalho junto às categorias inferiores passou a ser fundamental para o Atlético. Treinadores como Yustrich e Telê Santana cuidavam dos profissionais e os dedicados Zé das Camisas e Barbatana, um ex-atleta dos anos 50, cuidavam de preparar os garotos do futuro.

                                       Enquanto cresciam, os meninos viam o Galo ganhar o Campeonato Mineiro de 70 e vencer brilhantemente o primeiro Campeonato Brasileiro promovido pela CBD, em substituição ao extinto Rio – São Paulo, em 1971. Foi uma campanha irretocável: em 27 jogos, doze vitórias, dez empates e cinco derrotas. Marcou 39 gols e sofreu 22, e ainda teve o artilheiro do campeonato: Dario (Dadá Maravilha), o Peito de Aço, com quinze gols, além de ganhar o título de Campeão da Disciplina.

                                       O Cruzeiro, que crescera muito com o Mineirão, começava a ser novamente ultrapassado por seu rival. O Atlético aumentou seu investimento nos garotos do dente-de-leite, infantil e juvenil, e, com eles, ganhou o Campeonato Mineiro de 1976, chegou à final do Brasileiro de 1.977 e empolgou o país com o talento de craques como Reinaldo, Toninho Cerezo, Marcelo, Paulo Isidoro, Vantuir, João Leite e Danival.

                                       O clube cresceu. Seu patrimônio aumentou com a preocupação do presidente Valmir Pereira de deixar uma estrutura montada para seu sucessor e assim, quando o próximo presidente, Elias Kalil, assumiu o cargo em janeiro de 1980, pode levar o Atlético à fase de mais acelerado desenvolvimento de sua história. Foram anos nos quais o Atlético, estruturado pelo presidente que a torcida considera o melhor da história, comandou o futebol mineiro e nacional.

                                       O título de Hexa Campeão mineiro, conquistado por craques eternos como Eder Aleixo, Reinaldo Lima, Luizinho, João Leite, só não foi maior por uma falha do regulamento do Campeonato de 84, que só foi decidido nos tribunais em 89 a favor do Cruzeiro. Ainda houveram os títulos de 85 e 86 que poderiam ter significado o eneacampeonato. Com a chegada de Afonso Paulino na presidência do Atlético, o time foi todo vendido e desmantelado. Iniciou-se uma crise interna que se arrasta há mais de 10 anos, hoje completada por Paulo Cury e seus assessores Mazinho e Jacaré.

                                       Todo o desenvolvimento conquistado no passado tem caído por terra, desmantelado por más administrações. Apesar de todos estes problemas internos hoje vividos, o Galo consegue se manter sempre entre os primeiros, estando hoje como segundo colocado nacional no ranking da CBF e da Placar. Isto se deve a força de sua torcida, que empurra e da raça ao time sempre.

                                       Varias boas colocações no Campeonato Brasileiro e um Bicampeonato da Taça Conmebol (92/97) garantem ao Atlético também uma boa colocação no Ranking Mundial divulgado pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol em 06/08/98, sendo o Galo o 25º colocado do Mundo. A final da Copa Libertadores da América de 2013 foi disputada entre Olímpia, do Paraguai e Atlético Mineiro, do Brasil em 17 e 24 de julho de 2013.

                                       No primeiro jogo da final, no Estádio Defensores del Chaco, em Assunção, houve vitória do Olímpia por 2×0. O Atlético Mineiro devolveu o placar no segundo jogo da final, no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte, resultando em um placar agregado de 2×2 nos 180 minutos da decisão, sem gols durante a prorrogação ao final da segunda partida, o que levou a definição do título para a disputa por pênaltis. O Atlético Mineiro sagrou-se campeão ao vencer nos pênaltis por 4×3, conquistando seu primeiro título da competição.

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