ADEMIR DA GUIA: o Divino

                  Ademir da Guia nasceu dia 3 de abril de 1942 em Bangu (RJ). Filho de um extraordinário jogador de futebol, Domingos da Guia, soube honrar a fama do pai, pois até hoje é lembrado como um verdadeiro ídolo pela torcida palmeirense, que o apelidou carinhosamente de “Divino”. Poucos homens na história do futebol se identificaram tanto com um único clube quanto Ademir da Guia. O ritmo cadenciado, as passadas largas, a extrema visão de jogo e a elegância com a bola nos pés conduziram este carioca ao sucesso.

                 O Palmeiras nunca teve um jogador tão talentoso e que unisse perfeitamente a capacidade de conquistar títulos, com classe e  habilidade, como o “Divino” demonstrou em 16 anos de clube. Sua genialidade transcendeu as quatro linhas, virando poesia e filme. Ademir da Guia tem um busto de bronze nos jardins do estádio Palestra Itália. É o maior nome que envergou as cores alviverdes. Com a camisa do Palmeiras, Ademir disputou 901 partidas (recordista do clube), marcou 153 gols (3º maior artilheiro do clube) e jogou de 1962 a 1977.

BANGU

                 Ademir da Guia até os 10 anos só pensava em piscina, onde conquistara troféu pelo Bangu Atlético Clube. Com 14 anos de idade jogava bola nos campinhos de terra batida de Bangu, subúrbio carioca onde nasceu. Com a mesma esperança que move milhões de garotos brasileiros, seu colega Durval chamou-o para participar de um treino no Bangu. Logo nos primeiros toques de bola, o técnico percebeu que se tratava de um belo brilhante a ser lapidado. Em 1957 e 58, disputou o campeonato infantil. No ano seguinte passou para o juvenil. Naquela época somente os times grandes sagravam-se campeões nesta categoria. Mas, para surpresa geral, naquele ano o Bangu conquistou o título e, como gratificação, a diretoria decidiu integrar quatro juvenis ao elenco profissional que iria disputar um torneio em Nova York. Entre eles estava Ademir. O Bangu fez uma bela campanha, com 5 vitórias e 1 empate, 16 gols a favor e 3 contra. Ademir da Guia ainda foi eleito o melhor jogador do torneio.

PALMEIRAS

                 Um verdadeiro caso de amor que teve início em 1961, mas o contrato de união foi firmado 11 meses depois. Sua estreia com a camisa alviverde aconteceu só no dia 22 de fevereiro de 1962. Naquela noite, no mesmo Pacaembu, o adversário era o Corinthians, em partida válida pelo Torneio Rio-São Paulo. Ademir estava no banco de reservas. E quando foi chamado pelo técnico Maurício Cardoso para substituir o meia Hélio Burini, mostrou personalidade e talento,  apesar  da  responsabilidade de debutar em um dos maiores clássicos do mundo com o estádio lotado.

                O triunfo palmeirense por 3 a 0 sobre o maior rival (gols de Vavá, no primeiro tempo, Gildo e Américo, no segundo) era o prenúncio de um futuro glorioso. Neste dia o Palmeiras jogou com; Valdir, Djalma Santos, Valdemar Carabina, Aldemar e Geraldo Scotto; Zéquinha e Hélio Burini (Ademir da Guia); Gildo, Américo (Romeiro), Vavá (Zeola) e Geraldo II.  No ano seguinte Ademir conquistava seu primeiro título paulista pelo Palmeiras. A partir de então, o Divino se tornou personagem central das famosas Academias de Futebol do Palmeiras.

                   Ademir mostraria com o passar do tempo suas qualidades e virtudes como visão de jogo, cadência, calma, técnica e a falsa lentidão que o acompanharia por toda carreira. De passadas largas, o jogador era avesso às corridas exacerbadas. Preferia ir ao seu ritmo, domando a bola com uma presteza sem igual. Mas Ademir ainda carecia de algo, de alguém para lhe fazer companhia no meio de campo e que lhe desse a liberdade para criar ainda mais e marcar mais gols. E essa pessoa viria já em 1964, aquele que formaria com ele, uma das melhores duplas de meio de campo de toda história do alviverde, o extraordinário Dudu, que vinha da Ferroviária de Araraquara.

                  Mas o entrosamento com Dudu só foi render frutos em 1966. Depois da disputa acirrada nas primeiras fases do Campeonato Paulista, o time deixou para trás Santos e Corinthians, abrindo quatro pontos de vantagem, o que ajudou e muito na conquista do título, que veio ao vencer o Comercial de Ribeirão Preto por 5 a 1, com um dos gols sendo marcado por Ademir da Guia.  Se Dudu era o operário, Ademir era o artesão.  E o casamento durou mais de uma década. Era quase impossível pronunciar o nome de um sem falar logo o do outro. Entendiam-se às mil maravilhas.

                 Certa vez, em 1967, o técnico Aymoré Moreira pediu a contratação de um outro meia-armador para seu lugar. Achava Ademir um jogador excessivamente frio, sem vibração. A resposta do diretor de futebol Ferruccio Sandoli veio seca: “Aqui, o técnico tem toda a liberdade, menos a de ser louco. E querer substituir Ademir é loucura”. Aymoré foi demitido e Ademir continuaria ídolo por mais dez anos. Ademir tinha facilidade para fazer jogada muito difícil: dominava a bola alta que vinha de frente, com a perna esticada. Ele pegava ela no ar, e parece que a bola grudava no pé dele. Tinha elegância, o toque refinado, uma visão de campo impressionante. Sua colocação era perfeita. Ele parecia estar em todos os lugares do campo.

                 Para Ademir da Guia, a melhor fase palmeirense começou em 1972 com a volta do técnico Osvaldo Brandão. Sua chegada coincidiu justamente com a formação da segunda Academia. Várias reformulações aconteceram no elenco, inclusive com a chegada do goleiro Leão e dos atacantes Edu, Leivinha, César e Nei. Muitas coisas mudaram, mas tudo continuava girando em torno de Dudu e Ademir. Com esta verdadeira seleção, o Palmeiras conquistou o título paulista de 72 sem nenhuma derrota.

                 Dois anos mais tarde, novamente o título viria para o Parque Antártica, depois de vencer o seu maior rival Corinthians por 1 a 0, gol de Ronaldo aos 21 minutos do segundo tempo.  Neste dia o Palmeiras jogou com; Leão, Jair Gonçalves, Luiz Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir; Edu, Leivinha, Ronaldo e Nei. O técnico era Osvaldo Brandão e este jogo aconteceu no dia 22 de dezembro de 1974, no estádio do Morumbi. Em 1976, Ademir da Guia conquistava seu último título pelo Palmeiras ao vencer o XV de Piracicaba por 1 a 0 no dia 18 de agosto, gol de Jorge Mendonça. O interessante deste título foi que Dudu era o técnico da equipe.

ÚLTIMO JOGO PELO PALMEIRAS

                    Corria o ano de 1977, tudo parecia normal. Mas aquele esquadrão já não era o mesmo e nem Ademir. Durante as partidas lhe faltava o ar. Depois de procurar o médico do Palmeiras, este o aconselhou a procurar um especialista. Fez uma cirurgia, mas não resolveu o problema. Sua última partida oficial aconteceu no dia 18 de setembro de 1977, quando o alviverde perdeu para o Corinthians por 2 a 0 pelo Campeonato Paulista daquele ano em que o time de Parque São Jorge conquistaria o título estadual, depois de um longo período de jejum. No segundo tempo,

                    Ademir teve que ser substituído por Picolé, pois apresentava problemas respiratórios. Depois disso, não mais voltou a equipe palmeirense. Na última vez que Ademir vestiu a camisa do Palmeiras em jogos oficiais, o time de Parque Antártica jogou com; Leão, Valdir, Beto Fuscão, Jair Gonçalves e Ricardo; Pires, Jorge Mendonça e Ademir da Guia (Picolé); Ivo, Toninho e Nei. O técnico era Jorge Vieira.

                   Ademir ficou afastado do futebol por seis anos, até ser convidado pelo diretor do departamento amador do Palmeiras para ser treinador do infantil. Desde então, para manter seu padrão de vida, o jogador passou por vários empregos até em áreas distantes do futebol. Seu jogo de despedida aconteceu no dia 23 de janeiro de 1984, entre os amigos do Palmeiras e um selecionado paulista que tinha Rivelino como seu adversário mais uma vez.

                   O jogo foi disputado no Canindé e Ademir da Guia só jogou 36 minutos, mas ganhou Cr$ 500 mil do Sindicato dos Atletas Profissionais, Cr$ 12.430.500,00 dos torcedores que lá compareceram e Cr$ 10 milhões do Rei Pelé.  Dois anos mais tarde, era erguida no Parque Antártica, uma estátua com seu busto e modestamente ele disse: “Acho que mereci, o Palmeiras teve muitos bons jogadores. Acho que eu fui um deles”.  Ademir foi eleito vereador em São Paulo pelo PC do B em 2004.

                   Pelo Palmeiras Ademir conquistou os seguintes títulos: Paulistas de 63, 66, 72, 74 e 76;  Brasileiros de 72 e 73; Robertão, em 67 e 69; Troféu Ramón de Carranza, em 69 e 74; Rio-São Paulo, em 65; Taça Brasil, em 67; Mar del Plata, Laudo Natal e Cidade de Zaragoza, os três em 1972; Torneio IV Centenário do Rio, em 1965. Disputou 901 jogos: (509 vitórias, 234 empates e 158 derrotas) e anotou 153 gols. Ademir da Guia pertenceu a uma época em que uma partida parecia um desfile de modas e tudo tinha de ser feito com um toque de classe e muita elegância.

SELEÇÃO BRASILEIRA

               Ademir vestiu a camisa canarinho pela primeira vez, em 7 de setembro de 1965, quando o Palmeiras representou o Brasil, enfrentando o Uruguai na inauguração do Mineirão. Neste dia o Palmeiras venceu por 3 a 0. Depois foi convocado por Zagallo para a Copa de 74 na Alemanha. Só teve oportunidade de entrar no jogo pela disputa do terceiro lugar contra a Polônia, e isso porque Luiz Pereira tinha sido expulso na partida anterior e Paulo César Caju estava machucado. E para surpresa geral, mesmo jogando bem, foi substituído. Pela seleção brasileira, atuou em apenas 12 partidas, com 7 vitórias, 3 empates e duas derrotas, sem marcar gols. Certa vez Ademir disse: “Não sou frustrado por não ter tido muitas chances na seleção.

                   O futebol me deu muitas alegrias, e sempre foi o meu  ganha-pão, por isso agradeço a Deus por tudo que Ele me deu”. Pelo seu talento e sua humildade, hoje o torcedor brasileiro e em especial a torcida alviverde lhe diz do fundo do coração, “Obrigado Ademir da Guia”.

 

Em pé: Djalma Santos, Peres, Baldochi, Minuca, Dudu e Ferrari –  Agachados: Dario, Servilio, César, Ademir da Guia e Tupãzinho
Em pé: Eurico, Leão, Nelson, Luiz Pereira, Dé e Dudu –   Agachados: Edu, Hector Silva, Cesar, Ademir da Guia e Pio
Em pé: Eurico, Leão, Luiz Pereira, Alfredo, Dudu e Zéca  –     Agachados: Edu, Madurga, Leivinha, Ademir da Guia e Nei

 

Em pé: Djalma Santos, Valdir, Santo, Procópio, Dudu e Ferrari –    Agachados: Julinho, Servilio, Tupãzinho, Ademir da Guia e Germano

Em pé: Djalma Santos, Valdir, Tarciso, Djalma Dias, Zequinha e Geraldo Scotto   –  Agachados: Gildo, Vavá, Servilio, Ademir da Guia e Becece
Em pé: Eurico, Leão, Luiz Pereira, Alfredo, Dudu e Zéca   – Agachados: Edu, Leivinha, César, Ademir da Guia e Nei
O TEMPO PASSOU …     Em pé: Eurico, Leão, Dudu, Luiz Pereira, Alfredo e Zéca Agachados: Edu, Leivinha, César, Ademir da Guia e Nei
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3 comentários em “ADEMIR DA GUIA: o Divino

  1. Fantástica matéria sobre o nosso eterno artilheiro alviverde Ademir da Guia, não só o Ademir da Guia, aqui também encontrei eternos jogadores que fizeram história no nosso futebol brasileiro. Um forte abraço Sr. José Carlos

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