VITOR: zagueiro que não apalpava ninguém

                 Vitor Ratautas nasceu dia 10 de março de 1934, na cidade de Santo André – SP. Foi um dos zagueiros mais viris do futebol brasileiro. Se jogasse nos dias de hoje, seria expulso em todos os jogos, tal era a forma dele jogar. Não alisava nenhum atacante e Pelé que o diga, pois foi um dos que mais sofreu com a marcação dura e muitas vezes violentas do zagueiro Vitor. Como sua família era de origem lituana, prevaleceu o apelido de “Vitor Lituano”, mas com o tempo passou a ser chamado de Vitor Paulada. Sua linhagem pertencia a um estilo formado para limpar a área rebatendo a bola a qualquer custo, mesmo que isso custasse a canela dos atacantes.

                Durante sua carreira jogou em diversos clubes paulista, como por exemplo, Juventus, São Paulo, Ponte Preta, Taubaté, Derac de Itapetininga e no Saad, atual São Caetano, onde encerrou a carreira em 1969. Teve a honra de vestir a camisa da seleção brasileira em diversas oportunidades e jogar ao lado de verdadeiros monstros sagrados do nosso  futebol, como  a  seleção  de  1959, que  era formada por; Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Vitor e Nilton Santos; Zito e Chinesinho; Garrincha, Quarentinha, Pelé e Pépe.

JUVENTUS

                Começou no futebol nas divisões amadoras do E.C. Santo André em 1950 e no ano de 1952 foi levado ao C.A. Juventus pelo atacante Marucci, onde firmou seu primeiro compromisso profissional. O jovem zagueiro Vitor, foi destaque, no time da Moóca de 1952. O time do Juventus, na época, era assim formado; Jaime, Valussi, Arnaldo, Vitor e Osvaldo; Nésio e Edélcio; Castro, De Maria; Osvaldo Buzone e De Camilo.  Era um bom time, tanto é que Vitor depois fez muito sucesso jogando pelo São Paulo, Negri também brilhou no Tricolor e Osvaldo Buzone jogou depois na Portuguesa de Desportos e no Palmeiras, onde sagrou-se campeão paulista em 1947, mas, no dia 21 de setembro de 1952, essa mesma equipe foi goleada pelo Corinthians por 6 a 2. O jogo foi no Pacaembu, válido pelo Campeonato Paulista e os gols corintianos foram anotados por; Baltazar (4), Luizinho e Gatão. Para o time do Moleque Travesso marcaram De Maria e Edélcio.

SÃO PAULO

                 Vitor foi contratado pelo São Paulo em 1954 apenas para compor o elenco. Na época, o Tricolor já contava com Pé de Valsa, Mauro Ramos de Oliveira e Turcão em seu renomado sistema defensivo e com isto, Vitor teve de curtir a reserva, pois o titular da posição era Pé de Valsa, um excelente zagueiro. Com o decorrer do tempo, foi conseguindo um lugar no time titular, principalmente com a saída de Pé de Valsa. Atuando como zagueiro ou lateral esquerdo, Vitor era chamado inicialmente pelos companheiros como “Vitor Polaco”, em razão da pele clara, cabelos louros e postura sempre séria. Mas depois pela sua maneira viril de jogar, passaram a chama-lo de Vitor Paulada. Somente no segundo semestre de 1954 passou a ser titular da equipe e um dos primeiros clássicos que disputou foi no dia 25 de julho, quando São Paulo e Corinthians proporcionaram um grande jogo de seis gols. O jogo terminou empatado em 3 a 3 e com este resultado, o Corinthians conquistou o Troféu Charles Miller.

                Neste ano de 1954 o São Paulo ficou em terceiro lugar no Paulistão e o Corinthians foi o campeão, um título que todos os clubes queriam, pois era o Quarto Centenário da Cidade de São Paulo.  No ano seguinte o Tricolor voltou a ficar em terceiro lugar e o campeão foi o Santos F.C. depois de 20 anos de jejum. Em 1956 ficou novamente em terceiro lugar e viu o Peixe conquistar seu bicampeonato estadual e de forma invicta. Até que finalmente chegava o ano de 1957, um ano que o torcedor são-paulino jamais esquecerá, pois montou um grande time e conquistou o título depois de quatro anos. A estréia foi nos 4 a 2 sobre o Palmeiras, em 10 de novembro. Nos quatro jogos seguintes, já no segundo turno da fase decisiva, mais goleadas, incluindo 6 a 2 sobre o Santos.

               O Corinthians manteve a boa campanha na fase decisiva e sustentou uma invencibilidade de 35 jogos até a penúltima rodada, com direito até à Taça dos Invictos.  E foi justamente contra o Corinthians no dia 29 de dezembro de 1957, que o Tricolor conquistou o titulo. Para esta partida o São Paulo jogou com; Poy, De Sordi e Mauro; Sarará, Vitor e Riberto; Maurinho. Amauri, Gino, Zizinho e Canhoteiro. O meia campista Dino Sani, contundido não jogou neste dia pelo Tricolor, Sarará era seu substituto.

               O drama corintiano começou aos dezessete minutos do segundo tempo. Zizinho cobra uma falta para Gino que, de cabeça, manda para Amauri que abre a contagem. Logo aos dezenove minutos, embalados pelo primeiro gol, Zizinho entrega para Amauri que atrai a zaga do Corinthians e passa na medida para Canhoteiro marcar o segundo gol do São Paulo. Precisando ganhar o jogo, o Corinthians parte para o ataque e aos vinte dois minutos, Rafael, de puxada, diminuiu o placar. Daquele momento em diante o jogo ficou dramático para os corintianos que era todo ataque. Era o time da garra e da raça que a torcida estava acostumada a ver.

               Benedito mandou duas bolas na trave do São Paulo que se defendia de qualquer maneira. Zizinho procurava prender a bola para passar o tempo. Como o Corinthians estava todo no campo do São Paulo e não marcava, um chutão para frente pegou Maurinho livre. O ponteiro bateu na corrida o lateral Olavo, invadiu a área, driblou Gilmar e marcou 3×1. Um gol que definiu o titulo para o São Paulo aos trinta e quatro minutos.

PELÉ ODIAVA VITOR

               Vitor era um jogador muito viril e muitas vezes violento. Com isto os atacantes sofriam e muito com sua forte marcação e um dos jogadores que mais sofreu com isto foi Pelé, que raramente saía de campo sem nenhuma marca nas canelas. E o ódio de Pelé para com Vitor era tão grande que certa vez num jogo entre Santos e São Paulo, aconteceu o seguinte lance.  O time da Vila possuía na época um dos melhores times do mundo, enquanto que o Tricolor não passava de um mero coadjuvante, pois economizava na compra de jogadores para investir em cimento, pois estava construindo o estádio do Morumbi, mas naquela noite chuvosa no Pacaembu, o Santos não conseguia vencer o goleiro Suly do Tricolor.

                Pelé nervoso pois não conseguia passar pelo extraordinário Roberto Dias e quando passava vinha logo Vitor para lhe derrubar. O São Paulo vencia a partida por 1 a 0 e o jogo já se encaminhava para o seu final, quando Dorval pela direita passou pelo lateral esquerdo Riberto e cruzou, a bola passou pelo goleiro Suly e já ia entrando no gol, quando a bola parou numa poça de água bem em cima da linha do gol, em meio a muita água e no lamaçal da pequena área. No desespero de evitar o gol, o zagueiro Roberto Dias deslizou de bunda na lama, entrou no gol, virou o rosto e ficou com nariz, boca e testa na bola encharcada, protegendo sua meta em cima da linha.

                Pelé, implacável, livre, só ele, a bola e a cara do zagueiro Dias, armou o tiro de misericórdia com o pé direito. Mas de repente, o Rei desarmou o chute e abandonou o lance. Com isto, rapidamente o goleiro Suly mesmo boquiaberto com aquela atitude do Rei, pulou e pegou a bola. Quando os jogadores estavam voltando para a intermediária, Dias encostou em Pelé e perguntou “Por que você não chutou, era o empate?” E Pelé respondeu “Porque era você, sujeito que joga de forma limpa e sem dar pontapés, porque se fosse o filho da p…. do Vitor Paulada, eu arrancava a cabeça dele”.

               Vitor jogou também na inauguração do Estádio do Morumbi, que aconteceu dia 25 de janeiro de 1960, quando o Tricolor venceu o Sporting de Lisboa por 1 a 0, gol de Peixinho. Com as orientações do lendário Leônidas da Silva, que na época atuou como treinador do São Paulo, Vitor aliou mais serenidade e lucidez ao seu estilo viril. Seu futebol cresceu e dessa forma as críticas, antes frequentes, começaram a ceder perante suas atuações cada vez mais regulares e eficientes. Vitor jogou no São Paulo de 1954 até 1961 e neste período disputou 382 partidas. Venceu 191, empatou 97 e perdeu 94. Marcou 7 gols e foi campeão paulista em 1957. Tornou-se um dos jogadores que mais vestiram a camisa do tricolor ao longo de sua história.

SELEÇÃO

               No final dos anos 50 e início dos anos 60, Vitor vestiu a camisa da Seleção Brasileira por diversas vezes, assim como a camisa da Seleção Paulista, como em 1959, ano em que o estado de São Paulo possuía uma grande quantidade de craques e a seleção era assim formada; Gilmar, De Sordi, Mauro, Vitor e Riberto; Dino Sani e Jair da Rosa Pinto; Dorval, Índio, Pelé e Chinesinho. Dia 26 de maio de 1960, a Seleção Brasileira fez um jogo contra a Argentina pela Copa Rocca. O jogo foi em Buenos Aires e os argentinos venceram por 4 a 2. Os gols brasileiros foram marcados por Djalma Santos cobrando pênalti e Delem. Para esta partida o técnico Vicente Feola mandou a campo os seguintes jogadores; Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Vitor e Geraldo Scotto; Dino Sani e Chinesinho; Julinho, Servilio, Almir Pernambuquinho e Delem.

OUTROS CLUBES

                Ao deixar o Tricolor, Vitor foi jogar na Ponte Preta, onde ficou por dois anos. Depois passou pelo América de São José do Rio Preto, ficando por lá também por dois anos. Depois jogou no Taubaté, no Derac de Itapetininga e Saad, atual São Caetano, onde encerrou sua carreira em 1969. Depois que parou de jogar passou a trabalhar em Santo André com venda de material de segurança, mas desandou a beber e teve um fim muito triste, vindo a falecer no dia 30 de junho de 1996. Teve três filhos, que lhe deram quatro netos.  Ainda hoje é lembrado como um dos zagueiros mais violentos do futebol brasileiro.

1960  –   Em pé: Fernando Sátiro, Poy, Servílio, Ademar, Riberto, Vitor e o roupeiro Serrone    –     Agachados: Peixinho, Dino Sani, Gino, Gonçalo e Roberto
Em pé: Albertino, Carlito, Dino Sani, Gérsio Passadore, Vitor e Riberto   –     Agachados: Cláudio, Canhoteiro, Neco, Celso e Roberto
Em pé: Bonelli, De Sordi, Victor, Turcão e Mauro   –    Agachados: Maurinho, Zézinho, Gino Orlando, Manéca e Canhoteiro
Em pé: De Sordi, Riberto, Dino Sani, Servílio, Albertino e Vitor    –    Agachados: Peixinho, Paulo Lumumba, Gino, Celso e Agenor
Em pé: Djalma Santos, Poy, Fernando Sátiro, Gildésio, Riberto e Vítor    –     Agachados: Julinho Botelho, Almir Pernambuquinho, Gino Orlando, Gonçalo e Canhoteiro
Seleção Paulista de 1959  –  Em pé: De Sordi, Dino Sani, Riberto, Gilmar, Vitor e Mauro   –     Agachados: Mário Américo (massagista), Dorval, Jair da Rosa Pinto, Índio, Pelé e Chinezinho
Em pé: Alfredo Ramos, De Sordi, Pé de Valsa, Poy, Vitor, Mauro Ramos de Oliveira e o mordomo Serrone    –     Agachados: Sastre, Dino Sani, Zezinho, Negri e Canhoteiro.
Em pé: Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Vitor e Gilmar    –   Agachados: Mário Américo, Garrincha, Chinesinho, Pelé, Quarentinha e Pepe
Em pé: De Sordi, Poy, Dino Sani, Riberto, Vitor e Mauro Ramos de Oliveira    –    Agachados: Maurinho, Lanzoninho, Gino, Zizinho e Canhoteiro
1957   –   Em Pé: De Sordi, Poy, Dino, Riberto, Vitor e Mauro Ramos de Oliveira   –   Agachados: Lanzoninho, Amauri, Gino, Zizinho e Canhoteiro

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