SANTOS 4×0 JUVENTUS – Dia 2 de Agosto de 1959

                   Era o dia 2 de agosto de 1959, e a tabela do campeonato paulista, marcava para este dia o jogo entre C. A. Juventus X Santos F. C. na Rua Javari, pela sétima rodada do primeiro turno. Era um domingo a tarde e o jogo começou às quinze horas, porque o estádio da Rua Javari nunca teve iluminação própria e lá os jogos precisavam terminar antes que escurecesse. Com a presença de Pelé em campo, já era esperado um grande público, o que se confirmou, pois tivemos naquele dia uma arrecadação de Cr$ 622.225,00, que foi o recorde de arrecadação naquele estádio. O árbitro da partida foi Sebastião Mairinque. O técnico santista Luiz Alonso Peres, o popular Lula, mandou a campo neste dia os seguintes jogadores: Manga, Ramiro, Pavão, Mourão e Formiga; Zito e Jair da Rosa Pinto; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Enquanto que o técnico do Moleque Travesso, o ex-craque Bauer, escalou os seguintes jogadores: Mão de Onça, Julinho, Homero, Pando e Clóvis; Lima e Cássio; Lanzoninho, Zeola, Buzzone e Rodrigues.

PRIMEIRO TEMPO

                   Os 45 minutos da primeira fase foram perfeitos. Jogo bonito, tranqüilo, bola sempre no chão, boa marcação e noção de passes excelentes. O Juventus foi nessa oportunidade um quadro do mesmo estilo técnico do Santos e se um ou outro jogador juventino se descontrolava e fazia uma jogada de má feitura técnica, também o Santos possuía em suas fileiras dois elementos que não andavam bem dentro do ritmo clássico da equipe e que se tornavam com certa freqüência autores de lances de má qualidade. Eram eles Pavão e Mourão. Não teve o Santos temor do adversário, começou jogando dentro de seu padrão e ritmo costumeiro, acionando a bola sempre rente ao solo, passando de primeira e com isso procurou envolver o Juventus. No entanto, para surpresa geral, reagiu o quadro local, jogando dentro do mesmo padrão, fazendo alarde de um bom nível técnico. No entanto, o Santos prosseguiu jogando com o mesmo acerto e o quadro avinhado começou, mesmo jogando bem, a se preocupar com seu sistema defensivo, recuando Lima e Zeola para barrar as investidas santistas pelo centro do campo.

               Aos 23 minutos do primeiro tempo, Pelé abriu o placar.  Mesmo sofrendo um tento, resistiu o Juventus ao primeiro golpe do adversário, continuando a contra-atacar, criando momentos de perigo para a meta de Manga, já que Pavão, sentindo muito o terreno escorregadio  caia com  muita freqüência  e com isso se confundia muito seguidamente dando “chance” então ao adversário de criar momentos de perigo. Reagindo bem a marcação do primeiro gol santista, mostrou o quadro dirigido por Bauer que estava em condições de aspirar realmente a vitória. E assim terminou a primeira etapa com a vitória do Santos por 1 a 0. Ao término do primeiro tempo, Lanzoninho deu um tapa na cabeça de Coutinho e o tempo esquentou, mas cada um foi para o seu vestiário e tudo se acalmou.

SEGUNDO TEMPO

                  Na segunda fase o Juventus passou a cuidar mais dos ponteiros santistas. Lima e Clovis passaram a auxiliar seus médios e o próprio Rodrigues recuou muito visando com isso dar cobertura a Pando enquanto Lima auxiliava a Julinho. Abrindo um pouco o centro do campo, permitiram então os “grenás” que Pelé e Coutinho manobrassem com maior facilidade, pois somente depois da bola dominada é que os procuravam para combater. Nessa altura cresceu a produção do ataque santista tanto mais que o recuo de Rodrigues deu a Ramiro o ensejo de passar a cobrir o meio de campo, enquanto Formiga descia para apoiar o ataque. Com isso o Santos foi dominando o jogo e aos 8 minutos marcou o seu segundo tento por intermédio de Pelé. Recolhendo a bola, num passe de Zito, Pelé adiantou-se e depois de enganar um adversário entrou pela área decididamente e atirou no gol no momento em que o goleiro saia da meta para fechar o ângulo. Quando a bola ia transpondo a linha de gol, Pando tentou num esforço desesperado afastar a bola, mas somente acabou enviando mais depressa ao fundo de suas próprias redes.

                  Depois de haver o Santos conquistado o seu segundo tento, os juventinos tiveram dois jogadores contundidos. Homero atingido por uma ”bicicleta” de Coutinho, teve de sair de campo para ser medicado. Depois foi Pando, que atingido por Pelé na disputa de uma bola perigosa no momento em que o atacante santista procurava assinalar mais um gol, teve que sair de campo para ser medicado e não mais voltou ao gramado (na época não havia possibilidade de substituição e, assim, o Juventus ficou com um homem a menos). Com a saída de Pando, recuou primeiro Rodrigues e depois Cássio para cobrir a posição de zagueiro esquerdo.

                 Em consequência disso o Santos que já dominava o jogo, teve então completa ascendência do jogo. Dorval lançado por Ramiro, então bem adiantado, invadiu a área e fechou para o arco, batendo Mão de Onça com um tiro rasteiro e bem colocado, fazendo assim o terceiro gol santista.

                 O Peixe já vencia o Moleque Travesso por 3 a 0, mas a torcida juventina insistia em pegar no pé do camisa 10 santista, tentando, inibi-lo com vaias e palavrões. Realmente Pelé naquele dia não estava jogando bem, fazia uma partida lenta, apesar de já ter feito dois gols até aquele momento. A torcida então começou a provocá-lo com vários xingamentos e gozações. De repente, Pelé olha para a torcida do Juventus e faz um sinal como quem pede para esperar, foi como despertar uma fera, logo depois saiu o magnífico gol. E quando tudo já parecia liquidado e que nada mais de interessante iria acontecer, eis que chega o momento histórico, tanto na vida de Pelé, como também para o nosso futebol. Foi o quarto gol do Santos, um desses golaços que passam para a história. E ele foi feito com a marca do gênio do futebol, que de fato ele é.

O GOL MAIS BONITO DE PELÉ

               Já eram transcorridos 36 minutos da etapa final, o Santos estava atacando para o gol dos fundos (aquele situado ao lado da Creche Marina Crespi) quando Pelé recebe a bola da ponta direita passada por Dorval. Na entrada da área ele se livra da marcação de Julinho jogando a bola sobre ele e corre para pegá-la mais a frente, fazendo uma jogada que ficou conhecida como “chapéu”. Pelé prossegue com ela, em seguida vem Homero a quem dá outro chapéu e segue com a pelota na direção de Clóvis a quem também dá outro chapéu, até ficar frente à frente com o goleiro Mão de Onça que também leva um chapéu e só tem tempo de olhar pra trás e ver Pelé com absoluta tranquilidade, esperar a descida da bola para com uma cabeçada, segura e bem calculada, enviá-la ao fundo das redes. Foi de tal forma sensacional o gol, que os jogadores do Juventus foram cumprimentar o atacante santista.

               Em seguida vieram os aplausos da torcida juventina, porque todos perceberam que algo extraordinário havia acontecido. Era um gol fora do comum, uma verdadeira obra de arte que nunca mais se repetiria. Segundo a própria avaliação de Pelé, este foi o gol mais bonito de toda sua carreira. Foi uma sequência de quatro chapéus sem deixar a bola cair. O goleiro foi o último a ser chapelado. Pelé não esquece a cena em que logo após marcar o gol, partiu para cima da torcida do Juventus dando soco no ar e xingando os caras dizendo “vaiem agora seus f.d.p.”  E assim nasceu o famoso “soco no ar”, uma marca registrada de Pelé nas comemorações de seus gols.

              O fato teve um lado até engraçado. Tinha chovido bastante de manhã e havia uma poça d’água na pequena área. O goleiro Mão de Onça pegou só barro. Ele ficou com a cara sobre a lama. E a torcida?, pensam que fizeram algum quebra quebra como hoje fazem, não, o estádio inteiro, amigos e inimigos de pé, aplaudiram e gritaram o nome de Pelé por quase 10 minutos, só digo que quando Messi conseguir fazer isso, ele vai estar chegando perto de Pelé.

                Na época o Juventus tinha um grande time e fazia um excelente campeonato. Tinha jogadores como; Lima, que anos depois foi convidado por Zito para jogar no Santos e lá conquistou inúmeros títulos. Homero, que em 1954 havia sagrado campeão do IV Centenário pelo Corinthians, onde até hoje é lembrado com muito carinho pela torcida corintiana. Cássio e Lanzoninho também foram jogadores que defenderam as cores do alvinegro de Parque São Jorge na década de 60, Rodrigues que foi ídolo no Palmeiras pelos títulos que por lá conquistou, inclusive o da Copa Rio de 1951, onde ele teve uma participação muito especial. E foi com este time forte e guerreiro que o Juventus vendeu cara aquela derrota por 4 a 0, naquela tarde de 2 de agosto de 1959.

                De fato, em toda sua gloriosa carreira de 1.281 gols, Pelé jamais voltaria a repetir jogada tão brilhante e este gol ficou na lembrança daqueles que o viram como o mais belo da história de todo o futebol. Mas as imagens se perderam no tempo e com base na lembrança dos torcedores presentes na Rua Javari, o gol pôde ser montado em computação gráfica para fazer parte do documentário e do filme “Pelé Eterno”.

               Ainda faltaram detalhes para que a jogada ficasse completa no filme, “o posicionamento de alguns jogadores envolvidos não foi exatamente o mesmo mostrado no filme, mas o importante foi restituir a cena que culmina no mais belo gol de todos os tempos. Para homenagear o Atleta do Século, em 2006 o Juventus inaugurou um busto de Pelé, logo na entrada do Estádio da Rua Javari. Pelé foi convidado para a cerimônia. Chegou com uma hora de atraso, mas compareceu e a Moóca viu de novo um grande público lotando seu modesto estádio para ver o Rei. Foi um outro acontecimento que ficou na história do humilde Clube Atlético Juventus. Aquele que era para ser mais um jogo entre Santos e Juventus, acabou se tornando um jogo histórico. Felizes aqueles que puderam estar no acanhado estádio do Juventus naquela tarde de domingo, pois puderam presenciar um fato raro, algo que só pode ser um presente de Deus para nós, pobres e amantes do futebol.

Em pé: Zito, Ramiro, Urubatão, Getúlio e Dalmo      –     Agachados: Dorval, Jair da Rosa Pinto, Pagão, Pelé e Pepe
Em pé: Julinho, Mão de Onça, Clóvis, Homero, Lima e Pando      –     Agachados: Lanzoninho, Zeola, Buzone, Cássio e Rodrigues

2 comentários em “SANTOS 4×0 JUVENTUS – Dia 2 de Agosto de 1959

  1. Gostaria de saber se este jogo passou ao vivo na antiga TV Tupi canal 3.
    Eu tenho a impressão que vi ao vivo esse lance junto com meu pai na Tv mas, não tenho certeza
    Obrigado
    Roberto

    1. Olá Roberto, tudo bem?

      Obrigado por acessar meu site. Quanto a sua dúvida, esse jogo não foi transmitido pela televisão, sendo assim, somente aqueles que estavam presente na Rua Javari naquela tarde de domingo, é que foram privilegiados com aquele gol que foi o mais bonito de toda carreira de Pelé.
      José Carlos de Oliveira

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